Precisei escrever

(Wanderer Above the Sea of Fog, Caspar David Friedrich. 1818 – Oil on canvas)

Deixei as palavras soltas caírem no papel como se deslizassem montanha abaixo. Há três dias, uma voz grita na minha cabeça; quer dizer algo que pulsa: uma voz, não, são muitas! Não sei por onde começar; a gramática me deixa travado. A pontuação me assusta: não posso mais usá-la; o travessão foi roubado e tudo isso é culpa da IA. Culpa? Mas que culpa? O que eles querem é inventar. E assim vão traçando modos, lados, reflexos estranhos, perspectivas que precisamos realmente ampliar.

O fato é que tenho lido; parei para pensar. Se não tivesse feito, talvez estivesse sorrindo, como tantos, olhando com semblante vidrado, pros lados, pras telas, pro fluxo incessante que parece nunca nos deixar descansar. Nos meus pensamentos, me perco; devaneio, pulo, vou e volto. Mas deixo, permito, logo me vejo à beira do abismo, abismo no qual eu quero mergulhar.

E, no fundo, me lanço; não temo o perigo. Pior seria ficar no raso, boiando, à deriva, sem rumo ou destino. Precisamos transvalorar, repensar tudo aquilo que já fez sentido, talvez em um tempo distante, mas que agora, diante de nós, parece desabar. O mundo anda esquisito, banal, vulgar; é tanto artifício cravado na alma que tudo se torna estranho; tamanho é o vale que temos que ultrapassar.

Os humanos perdidos, sem nem um consolo, desamparados, muitos não veem sentido em nada, nem em ninguém. Mas, pelo menos, parei para escrever; despejei o que queria dizer. Queria não, quero, quis! E aqui decido, imprimo, marco e insisto. Por hoje, encerro; amanhã tem mais pra contar.

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