
A luz âmbar irradiada pelo poste dava à cor da pele dos presentes um brilho etéreo, quase como um sonho. O cheiro de cerveja e de fritura inundava as mesas amarelinhas, com cadeiras de plástico ao redor. O barulho das conversas era embalado por um brega recifense que tocava baixinho ao fundo. Joaquim desceu do carro pela porta traseira direita e viu a massa de convidados. Seu perfume doce e marcante se espalhava pelo local enquanto ele andava devagarzinho até reconhecer a primeira pessoa sentada.
— Tudo bom, querida? Quanto tempo… Te vi cantando outro dia na internet. Tava arrasando… — disse a uma conhecida.
— É, bem aleatória eu tava, né? Deu vontade de postar uma coisinha. As redes tão esquisitas hoje em dia. Só tem influencer e marca.
— Total. E cadê o aniversariante?
— Tá ali no fundo, no final da mesa. Vai lá.
Seguiu caminhando pela longa mesa, formada por várias mesinhas de quatro lugares, todas posicionadas uma atrás da outra formando um longo complexo. O aniversariante estava quase escondido atrás de um convidado, tomando um drink esverdeado, cor de limão, com muito gelo e um canudo pendendo pra fora do copo, que suava no calor daquela noite do eterno verão da cidade.
— Oi, amigo! Parabéns. Achou que eu nem vinha, né?
— Passada, tu veio foi… nem esperava mesmo.
— Pois é, acabou que deu tempo. Terminei as coisas do trabalho logo e nem pensei, coloquei a roupa e tô aqui.
Seguiu voltando pelo caminho da mesa e, pouco a pouco, acenando para outros convidados que reconhecia. Parou ao encontrar dois amigos mais próximos e sentou-se junto a eles. Entre o vai e vem de conversas banais, seu fluxo de pensamentos foi interrompido quando ele chegou. Sua pele era clara e o cabelo raspado, de forma irregular, principalmente na parte de trás, lhe conferia um corte de cabelo estranho, porém único. Os lábios eram harmônicos, nem muito finos nem grossos; deveriam se encaixar em um beijo que ele ansiava tanto: longo e profundo. Tinha bigode, que era um traço que sempre chamava a atenção de Joaquim em qualquer homem, e um cavanhaque meio ralinho, que dava um charme adicional ao rosto. Os olhos eram castanhos-claros; tinham uma profundidade misteriosa, como os de quem olha para o outro com um semblante de dúvida, de não saber o que quer. Tinha uma aura de mistério, daquelas que intrigam. Ao menos, intrigava Joaquim, que já não era mais nem tão jovem, nem tão bobo, e não acreditava mais nessas fábulas do amor metafísico, platônico, transcendental. Buscava sensações estéticas do real, do palpável, daquilo que o corpo pode proporcionar no momento, no agora, no instante.
Joaquim imediatamente se levantou do seu lugar e fez como se fosse pegar uma bebida. Na volta, sentou-se do lado oposto da mesa, só para ficar melhor posicionado para a paquera: queria olhá-lo, mirá-lo, como quem atinge um alvo no centro e o perfura. Queria atingi-lo de forma sutil, mas que não pudesse ser ignorado. Manteve-se de pé, junto à mesa, atrás dos amigos, até que, enfim, após alguns instantes, que mais pareciam uma eternidade, seus olhos se cruzaram. A energia psíquica que emanava desse encontro o deixou atordoado, confuso, sem compreender o que acontecia. Ele, que agora era tão racional, se via novamente atravessado por um afeto desconhecido, não pela ideia boba de uma idealização, mas pela perspectiva de um mistério, de algo ou de alguém que ainda não se conhecia; como uma terra distante que ainda não foi explorada. Como a incerteza e a curiosidade de quem chega a um país estrangeiro no primeiro dia e anseia por explorar terrenos ainda desconhecidos. Segurou o olhar por mais tempo do que costumava; geralmente, não conseguia passar de dois ou três segundos olhando nos olhos de ninguém. Era relativamente tímido, não paquerava ninguém em festas, tinha olhos estruturalmente fundos, não de olheiras roxas, mas de uma profundidade cansada dos desencontros da vida.
Entre indas e vindas, os olhares do rapaz encontravam e desencontravam o seu. E nessa dança estranha, esquisita e hipnótica, continuaram a se encontrar aumentando a dúvida e o mistério. O que ele queria com isso? Queria apenas alimentar o seu próprio narcisismo assim como a maioria das pessoas hoje em dia? Ou será que queria provar algo? Provar algo novo que também o intrigava tanto.
As horas escorriam pelo relógio como uma tinta oleosa e fresca, escorrendo de uma tela quando aplicada em excesso. O tempo era demasiado fugaz e a efemeridade do instante evaporava diante da noite tropical daquela cidade cálida. Joaquim percebeu que a coisa não ia além disso, mas ansiava por saber o nome dele. Mas o que há em um nome? Um signo que às vezes pode ser roubado: o nome nos é introjetado pelos outros e se instala em nós como uma âncora. Às vezes, diz até onde podemos ir. Uma relação abstrata entre um significante e um significado, que às vezes mitifica esse sujeito, entendido apenas como um, e não como vários. Mas ainda assim, queria saber o nome.
— Como é o nome daquele boy, amigo? – Perguntou, enfim, ao aniversariante.
— Ah, esse aí é uma longa história comigo. Ele é hétero, mas temos um lance aí… Mas desencana que ele não fica com homens não.
E não era sempre assim? Uma longa história com um, ou com outro… Ou já foi namorado do melhor amigo, ou então é ex-namorado de alguém de quem não se pode furar os olhos. A narrativa era uma roleta de valores marcados que sempre caía nas mesmas cartas, como um tarô de destinos preestabelecidos. Um baralho de amor viciado, no qual Joaquim jamais poderia tirar a sorte grande, nem por uma noite que fosse para gozar da vida por um instante.
Fez que sim com a cabeça e voltou ao seu lugar à mesa. Durante as horas que decorreram a partir daquele instante, ainda trocaram olhares, sempre nervosos e duvidosos. Mas Joaquim não conseguia mais fitar os seus olhos, não quando sabia que nada daquilo fazia mais sentido. Resolveu distrair-se, como fazia tão bem, com algumas conversas banais do lado oposto da mesa. As trivialidades das conversas jorravam como a cerveja amarela e espumante, derramada nos pequenos copos de vidro americano, típicos de botequim. Irrelevantes. A noite foi desvanecendo, as esperanças minguando, e quando deu por si, já era hora de chamar o carro. Abriu o aplicativo, chamou o motorista e embarcou fechando a porta traseira. Deu uma última olhada pelo vidro fumê do carro; agora sabia que não poderia mais ser visto. Seu olhar, agora, era distante por trás do véu escuro, como um sonho perdido de um lugar que se sabe que nunca vai chegar. A fumaça dos cigarros subia em direção à luz do poste e a efemeridade do instante desaparecia na escuridão da noite. O que restava era apenas uma lembrança do instante.

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