Fazendo faxina em casa, encontrei outro dia um livreto da época do ensino médio. “Crônista, eu?” — estava escrito na capa — era uma pequena coletânea de contos e crônicas de alguns alunos do primeiro ano do colegial da escola que frequentava em 2006.
Ainda lembro o nome da minha professora de redação, a Carol, e como ela falava da escrita criativa com tanto deslumbramento. Olhando agora em retrospectiva, consigo compreender muito mais profundamente o que a motivava. O fato é que ela fez um belíssimo trabalho, pois plantou ali as sementes de futuros leitores e escritores.

(O Semeador, Vincent van Gogh. 1888 — Óleo sobre tela)
Sempre gostei de ler e me vi como leitor, mas o fato é que eu mesmo tinha esquecido que escrevia textos com um verniz literário. Foi preciso esse artefato, o livro, para me lembrar de que tenho capacidade de articular ideias por meio da palavra escrita. Este que mencionei anteriormente serviu como um memento. Segundo o dicionário, um objeto guardado para fazer alguém se lembrar de uma pessoa, de um lugar ou de um evento. Ainda bem que guardei uma cópia, assim me lembrei de que também posso ser um artista da palavra.
Em meio ao caos que vivemos hoje diante da crise climática, política, social, econômica e global, a linguagem é talvez o único (e relevante) refúgio metafísico que nos resta. Digo que é relevante porque existem outras metafísicas que não trazem nenhum benefício à nossa vida ou à sociedade. Evitarei mencioná-las, mas deixo a cargo do leitor imaginar. Voltando à metafísica, explico destrinchando a etimologia do termo: meta — para além de; depois, e física — refere-se às coisas naturais, ao estudo da natureza. Sendo assim, a metafísica seria o ramo da filosofia que estuda a natureza última da realidade, da existência do ser. Às vezes faz-se necessário decompor os vocábulos para entendê-los melhor. Quebrar em pedaços mais compreensíveis. Mas onde é que eu estava mesmo? Acho que já me perdi nas minhas próprias palavras, caro leitor.
Voltando, digo que a linguagem é uma metafísica relevante porque, além de nos permitir descrever o mundo físico, também nos permite imaginar possibilidades de construção de outros, a princípio imaginários, metafísicos, mas que, posteriormente, podem vir a ser físicos, reais, palpáveis. A linguagem é a grande política, como diz minha admirada Viviané Mosé. Não, não me canso de citá-la; espero um dia poder conhecê-la.
Sendo assim, é por meio da palavra e da literatura que podemos regressar às verdadeiras Humanidades. Essa assertiva não é minha; foi dita pelo professor Luiz Antônio de Assis Brasil, autor de um excelente manual de criação literária intitulado “Escrever ficção”. Tive a oportunidade de ser aluno do professor, ainda que apenas metafisicamente, em um curso online e gratuito oferecido pela PUC-RS. Deixo o link no final dessa crônica para quem tiver interesse. O que me chamou a atenção na fala do professor foi justamente esse grande insight de que é na escrita criativa que podemos articular um amplo espectro de saberes de diferentes áreas do conhecimento sem que isso deixe de ser uma experiência estética. A plasticidade da literatura, portanto, nos permite alcançar esse deleite de compreender algo sem que isso seja tedioso. É a palavra no auge de sua potência humana. A linguagem só existe metafisicamente em nós.
Cheguei à conclusão de que escrever é inadiável, parafraseando o título do mais novo livro da brilhante Socorro Acioli, que trata do amor. Somos a “Espécie Fabuladora”, diz Nancy Houston em seu livro; desse modo, compreendemos o universo à nossa volta por meio de histórias. A fabulação, essa capacidade de criar narrativas, é aquilo que nos constitui como humanos. Algo inerente à nossa própria existência.
Ainda mais no presente, em 2026, no ano em que escrevo, quando já se fala de uma sociedade “pós-letrada”, em que os humanos começam a perder a capacidade de ler e escrever. É justamente agora que preciso repetir: escrever é inadiável, pois é com a escrita que conseguimos organizar melhor nossas ideias, nosso pequeno universo metafísico da linguagem e, por meio dele, exercitar nossa imaginação e a capacidade de criar um futuro digno para toda a humanidade. São vinte anos depois que a minha professora Carol me estimulou a escrever o meu primeiro texto criativo; agora, neste eterno retorno, só tenho a agradecer por aquela semente tão bem plantada, que aguardava germinar e florescer.
- Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada com o aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.
Link do curso mencionado (gratuito): https://online.pucrs.br/formacao-gratuita/escrita-criativa-tecnicas-e-praticas - A espécie fabuladora — https://link.amazon/B06YGFBxL
- Amar é inadiável, Socorro Acioli — https://link.amazon/B0aFvKBol
- Escrever ficção, Luiz Antonio de Assis Brasil — https://link.amazon/B0aFDh6SX

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