• Alumni

    Hoje, dia 15 de outubro, data em que se celebra o Dia dos Professores, cheguei à trágica conclusão de que não se pode ensinar absolutamente nada a ninguém. Calma, caro leitor, discorro sobre a controversa afirmação a seguir.

    Após 16 anos ensinando, é inevitável refletir sobre o próprio ato de lecionar. Nesta profissão tão mal reconhecida em nosso país (e olhe que estou falando de um lugar de extremo privilégio, porque ensino em escola particular, em um nicho muito afortunado que é o inglês), creio que todo profissional da educação já se questionou por que exercer tal função.

    Acredito que não se escolhe ser professor, mas se torna professor; parafraseando livremente aqui a Simone de Beauvoir em sua assertiva sobre o que é ser mulher. Ensinar é ter a oportunidade de ser um eterno aprendiz, aquele que, consciente de sua profunda ignorância, decide ser um aluno perpétuo. Talvez por isso, os educadores mais fervorosos se choquem tanto com alunos desleixados. Além de não terem brilho, como o antigo mito etimológico da palavra nos explicava (a — prefixo de negação / lummni — luz), muitos carecem da vontade de serem iluminados.

    Hoje, essa falsa afirmação etimológica já foi refutada e considerada datada e antipedagógica. O dicionário Houaiss diz que “aluno” na verdade vem do latim Alumnus, que significa “criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo”, derivado do verbo alere, que significa “fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer”, etc. Voltando à minha livre reflexão e sem adentrar nos pormenores da ética pedagógica, o fato é que me parecem existir dois tipos de alunos: os realmente sem luz e os brilhantes.

    Faz-se necessário explicitar que aqui não estou fazendo juízo de valor nem implicando que alguns sujeitos com níveis diferentes de oportunidade sejam melhores ou mais capazes do que outros. Ora, sabemos bem das horrendas condições da educação no Brasil e das injustiças da desigualdade social. A precarização e a falta de acesso a recursos educacionais são problemas sérios nesta nação, e, obviamente, não estou a validar esse discurso falso, hipócrita e neoliberal de que existiria uma meritocracia e todo aquele blá-blá-blá. Jamais, caro leitor! Jamais podemos comparar indivíduos com diferentes condições histórico-socio-materiais e colocá-los na mesma balança, propagando essa ilusão de meritocracia. Que fique muito claro que não se trata disso a minha divagação.

    O meu devaneio de professor é mais um exercício filosófico-imaginativo livre. Para estarmos na mesma página, imagine o seguinte: um grupo de adolescentes de classe média alta, extremamente privilegiados, que tem absolutamente todas as condições materiais para aprender. Imaginou? Pronto, é deste grupo que estou falando nessa crônica.

    Pois bem, como dizia, a afirmação de que não se pode ensinar nada a ninguém baseia-se na reflexão sobre a minha experiência enquanto aluno e professor. Todo docente já se frustrou com alunos que não seguem o caminho que mostramos ou, pior, fazem exatamente o contrário do que dizemos. São esses casos a que me refiro. Veja que é importante enxergar o professor não como essa criatura mítica que detém todo o conhecimento de uma determinada área, mas sim como alguém um pouco mais esclarecido, talvez menos ignorante, que está a guiar um caminho, uma trilha do aprendizado. Por ter percorrido esse caminho, o educador saberia qual estrada seguir e, então, essa seria a direção que desejaria facilitar aos seus alunos.

    É nesse contexto que cheguei à conclusão de que não se pode ensinar nada, mas apenas mostrar o caminho e sugestionar a melhor maneira de percorrê-lo. Assim, pode-se entender que não há ensino no sentido mais estrito do termo, mas apenas aprendizado. Seria mais claro dizer “instrução” em vez de “ensino”, porque dar instruções aos alunos é tudo o que podemos fazer enquanto educadores, mas sempre caberá ao aluno executar essas instruções da maneira que bem entender. E, como mencionei anteriormente, muitas vezes eles tendem a fazer exatamente o oposto ou a não seguir nenhuma instrução. É também papel do educador provocá-los, no sentido de trazer à tona questões e reflexões, de modo a gerar incômodo. É desse desconforto que pode nascer um entendimento, um momento de eureka, uma sensação de que as peças se encaixaram.

    Já os alunos brilhantes têm o seu próprio brilho, como a etimologia da palavra agora não mente. A sua própria luz  os guia, junto com as instruções do professor, na trilha do aprendizado. Penso que são justamente estes que trazem um prazer imenso aos professores que se maravilham com a sede de aprendizado e com a fluidez com que aprendem. Há talvez uma espécie de espelhamento também. O educador se vê no aluno brilhante, e vice-versa. Há um pacto poético de deslumbramento sobre o quão mágico é aprender algo novo. Lançar luz sobre um percurso sombrio, desbravar os terrenos do que ainda não se sabe, mas que se anseia tanto por saber. É nesse sentido que acredito que não se pode ensinar nada a ninguém, mas com boas instruções e um pouco de iluminação, pode-se aprender eternamente.

    Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada com o aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.

  • Não tive filhos.

    Eu não tive filhos! Falando assim, parece até que eu já morri. Risos. O pensamento me veio à tona enquanto lia o livro do Gregório Duvivier e, de repente, cheguei ao vocábulo “puerpério”. Esta estranha e desconhecida palavra, definida no dicionário como: “período que se estende do parto até que os órgãos genitais e as condições gerais da mulher estejam normalizados”.

    (Preciso abrir um parêntese: o livro, organizado em breves capítulos, aborda, de forma engraçada e afetuosa, diferentes termos do léxico da língua portuguesa; sem dúvida, uma leitura leve e prazerosa recomendada a todos).

    (Esperança I, Gustav Klimt. 1903 — Óleo sobre tela)

    Foi quando me deparei com uma série de palavras que adentravam o universo alienígena do recém-nascimento de um bebê. Pelo menos para mim! Orbitando ao redor do puerpério — para me referir aqui ao universo espacial que Gregório usa em seu texto — estão termos como crosta láctea, mecônio, vérnix caseoso, apojadura e colostro, só para citar alguns. Não sei por que, mas ultimamente tenho achado ainda mais fascinante essa relação entre as “Palavras e as coisas”, como disse Foucault no título de um de seus livros. Essa relação simbiótica entre o léxico e os fenômenos da natureza e da realidade que a linguagem propõe-se a descrever. Não vou adentrar este universo de reflexão porque não era minha motivação principal ao iniciar esta crônica, mas é intrigante como os limites da nossa compreensão talvez acabem sendo sempre os da nossa linguagem, como diria Wittgenstein. Nesse jogo de palavras que fazemos quando concebemos as coisas e tentamos nomeá-las.

    O fato é que, neste mergulho que fiz, por meio do texto, no universo léxico dos bebês, ocorreu-me a quantidade de amigos e amigas, homens e mulheres, que tiveram bebês recentemente. O Igor e a Bruna tiveram a Mel; a Faygha e o Eduardo, a Arya; a Aline e o Romero, o Horácio; a Iohanna e o Luiz Paulo, a Malu; a Olga e o Lucas, a Eva; e a Julia e o Pedro, a Bruna. E eu não tive ninguém. E nem quero! O leitor vai pensar que sou um tanto ranzinza — e, bem, talvez seja mesmo — mas não vejo isso como um insulto, talvez seja um tanto de sanidade.

    Eu até me admiro e acho louvável a empreitada de trazer uma nova vida ao mundo. É, de fato, uma missão árdua e perpétua, pois acredito que nenhum pai ou mãe deseje que o filho venha a óbito antes da própria partida deste planeta. Desse modo, ao conceber o projeto de um filho, já se tem consciência de que este será um vínculo eterno até a morte. Ou assim, se espera.

    Imagino, porém, os corações aflitos desses jovens papais e mamães diante do cenário de crise global. Poxa, logo na minha vez de ser adulto! — Eles pensam e com razão, pois ninguém deveria ser privado desse prazer de reproduzir e gerar uma nova vida, algo que dá sentido à própria existência de tantos humanos. Mas a vida é mesmo um fenômeno complexo. Um agón, como diriam os gregos, é essa eterna batalha ou conflito que acaba por ser a mola propulsora da própria vivência. Ora, pense numa narrativa ficcional: sem conflito, não há história. Tudo fica parado e sem sentido. Assim é na nossa vida: faz-se necessário este desequilíbrio que, de alguma forma, nos faz buscar continuar a nossa existência que carece de significado inerente.

    Bem que podia ser mais fácil, não é? Viver numa utopia, com direitos garantidos a toda a humanidade. Que pudessemos gozar do pleno ir e vir, e de todas as maravilhas que o nosso planeta azul pode nos oferecer. Estar também em paz e em harmonia com a força divina da natureza. Fazer as pazes com o mistério da vida, sem tentar sempre decifrá-lo nem sequer explicá-lo, como já se empenharam tantos teólogos, filósofos e pensadores. Mas, sim, aceitar que o mistério é justamente aquilo que não pode ser explicado, pois os limites da compreensão da realidade são as barreiras da linguagem, como citei anteriormente, no pensamento de Wittgenstein.

    Talvez eu seja, de fato, como o Brás Cubas de Machado: nem me casei e também “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”, mas sigo, pelo menos, feliz na certeza do mistério. Aceitando essa loucura que é a vida, e afirmando-a apesar de todos os puerpérios.

    • Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada com o aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.
    • Aos pés da letra – Gregorio Dudivier — https://link.amazon/B0fNtkXnp
  • Escrever é inadiável

    Fazendo faxina em casa, encontrei outro dia um livreto da época do ensino médio. “Crônista, eu?” — estava escrito na capa — era uma pequena coletânea de contos e crônicas de alguns alunos do primeiro ano do colegial da escola que frequentava em 2006.

    Ainda lembro o nome da minha professora de redação, a Carol, e como ela falava da escrita criativa com tanto deslumbramento. Olhando agora em retrospectiva, consigo compreender muito mais profundamente o que a motivava. O fato é que ela fez um belíssimo trabalho, pois plantou ali as sementes de futuros leitores e escritores.

    (O Semeador, Vincent van Gogh. 1888 — Óleo sobre tela)

    Sempre gostei de ler e me vi como leitor, mas o fato é que eu mesmo tinha esquecido que escrevia textos com um verniz literário. Foi preciso esse artefato, o livro, para me lembrar de que tenho capacidade de articular ideias por meio da palavra escrita. Este que mencionei anteriormente serviu como um memento. Segundo o dicionário, um objeto guardado para fazer alguém se lembrar de uma pessoa, de um lugar ou de um evento. Ainda bem que guardei uma cópia, assim me lembrei de que também posso ser um artista da palavra.

    Em meio ao caos que vivemos hoje diante da crise climática, política, social, econômica e global, a linguagem é talvez o único (e relevante) refúgio metafísico que nos resta. Digo que é relevante porque existem outras metafísicas que não trazem nenhum benefício à nossa vida ou à sociedade. Evitarei mencioná-las, mas deixo a cargo do leitor imaginar. Voltando à metafísica, explico destrinchando a etimologia do termo: meta — para além de; depois, e física — refere-se às coisas naturais, ao estudo da natureza. Sendo assim, a metafísica seria o ramo da filosofia que estuda a natureza última da realidade, da existência do ser. Às vezes faz-se necessário decompor os vocábulos para entendê-los melhor. Quebrar em pedaços mais compreensíveis. Mas onde é que eu estava mesmo? Acho que já me perdi nas minhas próprias palavras, caro leitor.

    Voltando, digo que a linguagem é uma metafísica relevante porque, além de nos permitir descrever o mundo físico, também nos permite imaginar possibilidades de construção de outros, a princípio imaginários, metafísicos, mas que, posteriormente, podem vir a ser físicos, reais, palpáveis. A linguagem é a grande política, como diz minha admirada Viviané Mosé. Não, não me canso de citá-la; espero um dia poder conhecê-la.

    Sendo assim, é por meio da palavra e da literatura que podemos regressar às verdadeiras Humanidades. Essa assertiva não é minha; foi dita pelo professor Luiz Antônio de Assis Brasil, autor de um excelente manual de criação literária intitulado “Escrever ficção”. Tive a oportunidade de ser aluno do professor, ainda que apenas metafisicamente, em um curso online e gratuito oferecido pela PUC-RS. Deixo o link no final dessa crônica para quem tiver interesse. O que me chamou a atenção na fala do professor foi justamente esse grande insight de que é na escrita criativa que podemos articular um amplo espectro de saberes de diferentes áreas do conhecimento sem que isso deixe de ser uma experiência estética. A plasticidade da literatura, portanto, nos permite alcançar esse deleite de compreender algo sem que isso seja tedioso. É a palavra no auge de sua potência humana. A linguagem só existe metafisicamente em nós.

    Cheguei à conclusão de que escrever é inadiável, parafraseando o título do mais novo livro da brilhante Socorro Acioli, que trata do amor. Somos a “Espécie Fabuladora”, diz Nancy Houston em seu livro; desse modo, compreendemos o universo à nossa volta por meio de histórias. A fabulação, essa capacidade de criar narrativas, é aquilo que nos constitui como humanos. Algo inerente à nossa própria existência.

    Ainda mais no presente, em 2026, no ano em que escrevo, quando já se fala de uma sociedade “pós-letrada”, em que os humanos começam a perder a capacidade de ler e escrever. É justamente agora que preciso repetir: escrever é inadiável, pois é com a escrita que conseguimos organizar melhor nossas ideias, nosso pequeno universo metafísico da linguagem e, por meio dele, exercitar nossa imaginação e a capacidade de criar um futuro digno para toda a humanidade. São vinte anos depois que a minha professora Carol me estimulou a escrever o meu primeiro texto criativo; agora, neste eterno retorno, só tenho a agradecer por aquela semente tão bem plantada, que aguardava germinar e florescer.

  • Seríamos todos neuróticos?

    (texto originalmente produzido para o grupo de estudos de filosofia existencial guiado pelo professor Marcus Bruzzo https://www.marcusbruzzo.com.br/ )

    ​Quando se pensa no termo neurose, há uma associação imediata com a neurose clínica, aquela em que o sujeito apresenta sintomas que causam algum mal-estar ao mesmo tempo em que tem plena consciência de que algo não vai bem. Contudo, em A negação da morte, Ernest Becker vai mais fundo ao postular que “a neurose é um outro termo para indicar o problema total da condição humana”. O capítulo do qual o trecho supracitado foi extraído é, com certeza, um dos mais marcantes da obra, pois lança luz e abre uma reflexão para que nós, enquanto sujeitos modernos, possamos pensar quais são as nossas formas de neurose da vida cotidiana, por que elas surgiram e qual a melhor maneira de conviver com elas, uma vez que, segundo Becker, é praticamente impossível para um sujeito moderno viver completamente livre delas.

    (A Persistência da Memória, Salvador Dalí. 1931 — Óleo sobre tela)

    ​Mas por que somos neuróticos? O que traz esse mal-estar na civilização tão brilhantemente elucidado na obra de Freud? Com base em uma perspectiva evolucionista darwiniana, acredito que poucos discordariam de que a aversão de qualquer organismo vivo à sua própria aniquilação seja um elemento essencial, portanto instintivo, que garante a continuidade da vida. Percebe-se isso quando estamos em uma situação de vida ou morte: pensemos em alguém que sobrevive após ficar preso no elevador de um prédio em chamas. Costumamos dizer que “vemos a nossa vida inteira passar como um flash diante de nossos olhos”. Usei deliberadamente este exemplo por ter vivido essa situação aos oito anos de idade, com meus pais.

    Contudo, o Homo sapiens é uma espécie que não opera apenas por instinto. Somos seres autoconscientes, dotados de metacognição, ou seja, pensamos sobre nossos próprios pensamentos. Essa particularidade do ser humano nos torna criaturas extremamente simbólicas e criativas, o que nos permite desenvolver elaborações psíquicas complexas.

    ​Um dos argumentos que o autor sustenta é o do medo, ou terror, da morte como a mola central que impulsiona todas as motivações humanas. Parece-me muito coerente essa perspectiva de pensamento apresentada, assim como a maneira como ele cita outros autores para construir seu raciocínio. Tome-se, por exemplo, a passagem em que ele cita Zilboorg: “porque por trás da sensação de insegurança diante do perigo, por trás do sentimento de desânimo e depressão, sempre se esconde o medo básico da morte, um medo que sofre elaborações muitíssimo complexas e se manifesta de muitas maneiras indiretas”.

    ​Essas elaborações, segundo a tradição psicanalítica freudiana, surgem sob a forma de recalque e deslocam esse medo primário da nossa finitude para o plano do inconsciente, de maneira transfigurada. Pois, como observa Zilboorg, seria impossível operar de forma funcional na civilização se estivéssemos sempre conscientes desse temor, já que ele consumiria grande parte da nossa libido, a energia psíquica vital. Essa constatação que Becker nos traz é profundamente intrigante ao afirmar que “a neurose é a tragédia moderna do homem: historicamente, ele é um órfão”. Isso me remete, inclusive, ao pensamento da brasileira Viviane Mosé, que, a partir de Nietzsche, nos explica que a nossa civilização moderna desaba sobre as nossas cabeças. Nas palavras da autora, “o que desintegra não é o mundo, e sim um ideal de mundo e do ser humano que nasceu do medo do tempo e da morte, do horror diante do desconhecido” (MOSÉ, 2019, p. 21).

    (O Grito, Edvard Munch. 1893 — Têmpera e pastel sobre cartão)​

    Portanto, o ser humano torna-se “doente de si mesmo” (NIETZSCHE, [1887] 2019 apud MOSÉ, 2019, p. 39) e desenvolve todos esses comportamentos simbólicos com vieses narcísicos de continuidade de sua própria vida, o que Becker, na obra, chama de “projeto causa sui”. E por essa via podemos constatar que algumas epistemes da modernidade, como o marxismo, a psicanálise e o positivismo, entre outras, ao se tornarem herméticas e tão certas de si próprias, podem se aproximar mais de um tipo de pensamento mítico-religioso do que se poderia supor em primeira análise.

    ​Referências:

    BECKER, Ernest. A negação da morte: uma abordagem psicológica da finitude humana. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro: Record, 2007.

    MOSÉ, Viviane. A espécie que sabe: do Homo sapiens à crise da razão. Petrópolis: Vozes, 2019.

    NIETZSCHE, Friedrich. A genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Brasiliense, 1998.


  • (Isle of the Dead, Arnold Böcklin. 1883 – Oil on wood panel)


    De certo soará caricato desenvolver um ensaio filosófico que ambiciona relacionar tópicos aparentemente tão desconexos. Como relacionar o pensamento de uma filosofia, até hoje incompreendida por muitos, tão desconstrutora dos conceitos, com um produto mercadológico da indústria cultural contemporânea? Ora, se há algo que possa reverberar em meu entendimento acerca do pensamento de Nietzsche, é justamente que é necessário fazer um salto sobre aquilo que seria considerável, provável, previsível; é preciso construir um pensamento próprio, um pensamento daquilo que é improvável.

    Talvez o melhor caminho, então, para não cair na caricatura, seja simplesmente omitir a fonte exata do enredo que analiso neste ensaio. Contento-me em dizer que as personagens que irei analisar representam polos opostos: uma é vista como o bem e a outra como o mal. Conceito facilmente explicitado pela ideia taoísta de yin e yang, duas forças diametralmente opostas que se contrabalançam e se transformam mutuamente de forma contínua; perpetuam a ideia heraclitiana do devir; a eterna transformação através do encontro e do desencontro. No corpo humano, nosso microcosmo, há uma série de reações e processos químicos, físicos e neurobiológicos que visam à homeostase, ao equilíbrio e à harmonia. No macrocosmo, ou aquilo além de nós, parece que temos essa tendência psíquica de querer, justamente, reduzir as coisas às palavras, como diz Foucault, querer sempre categorizar os conceitos em signos, amarrar significantes aos significados; eliminar a ambiguidade e tudo aquilo que não é binário. “Ou é, ou não é”, diz Parmênides. “Ser ou não ser? — Eis a questão! — ecoa Shakespeare. Mas, de outra perspectiva, e se for possível ser e não ser ao mesmo tempo? Nietzsche, finalmente, põe em questão.

    Pois bem, na narrativa da espécie humana, acreditou-se necessário definir como ‘o mal’ tudo aquilo que não é ‘o bem’. Dito de outro modo, é por meio desse jogo de signos de que as palavras são feitas que se constitui o sistema metafísico que é a linguagem. Como diz Viviane Mosé, “os conceitos, assim como as palavras, são resíduos de metáforas, são metáforas mortas, fixadas pela necessidade de identidade” (MOSÉ, 2018, p. 51). Sendo assim, a ideia do que é o outro se apresenta na forma de negação do que não sou. Essa ideia de alteridade é que alimenta toda sorte de pensamento dicotómico e polarizante que vemos hoje na cultura contemporânea. E, visto que o outro lado está sempre “errado” — uma vez que o meu seria o certo —, ele precisa ser eliminado, exterminado; precisa ser apresentado como ‘o mal’. Essa lógica metafísica civilizatória da linguagem alimentou todo tipo de guerra desde os tempos antigos, atingindo seu ápice nos horrores da Segunda Guerra Mundial. O antissemitismo, uma forma de negação e exclusão do outro, foi o mecanismo e a desculpa vazia em que o regime nazista se embasou para criar um alvo. Alvos que, na lógica explicitada anteriormente, sempre precisam ser criados para que a narrativa seja justificada.

    Voltemos às personagens que busco analisar. Acerca da obra sobre a qual discorro, o público contemporâneo é convidado a rever suas concepções sobre o que significam os conceitos de bem e de mal. Por mais que eu já tenha lido, assistido e ouvido a obra uma série de vezes, sempre encontro novos pontos de luz e de sombra que mostram nuances de uma escala de cinzas que, a olho nu, passariam despercebidas. À primeira vista, a história que menciono é tão cheia de detalhes e reviravoltas que seria quase inconcebível captar todas as suas sutilezas, e talvez isso seja mérito de todas as histórias dignas de nossa atenção, visto que, se o conto é simplista demais, cai na objetividade insossa de categorização da realidade, que, como sabemos, é complexa demais para ser reduzida a esse binarismo inocente. Desse segundo tipo de narrativas inúteis estamos fartos, pois, como acusam Adorno e Horkheimer em seu “A dialética do esclarecimento” (1944), a mercantilização da arte e da cultura para as massas resulta na criação dessa indústria que pasteuriza a experiência estética, artística, encaixotando-a e embalando-a em plástico. Tome-se, como exemplo, não por acaso, a recente adaptação cinematográfica de Christopher Nolan de “A Odisseia”. Não há nada de novo na maneira como o cinema hollywoodiano continua a perpetuar o estereótipo burguês e a pasteurizar até mesmo clássicos da tradição literária ocidental, transformando-os em um produto consumível. Adorno e Horkheimer já interpretavam, em sua obra, Odisseu como o protótipo do homem burguês, a conhecida jornada do herói na qual toda tradição ocidental se baseia.

    É justamente por negar esse enredo simplista que acredito que a obra que analiso tem tido tanta força nos últimos vinte anos. Enredos que não têm um protagonista e um antagonista claros, definidos logo no começo, e que convidam o público a fazer sua interpretação a partir de suas próprias vivências e entendimentos, muitas vezes até mudando de concepção ao longo do percurso, são mais desafiadores para as massas em geral. Mas é justamente neste ponto que reside o potencial afirmativo desse conto. O convite feito ao público é olhar para além das aparências e, como diz Nietzsche, para “além do bem e do mal”. Compreendendo, então, que bem e mal são faces de uma mesma moeda e que é impossível que um exista sem o outro. Somos convidados a repensar e, possivelmente, a abraçar e acolher o mal que existe em nós, que teimamos em nos achar tão bons o tempo todo. E também reconhecer a nossa genuína bondade diante das situações em que nos é exigido sermos bons. Enfim, deixo a questão: será que o mal precisa sempre ser desprezado? E será que só aos bons é reservado um lugar melhor? O mal, enfim, talvez possa ser tão bom.

  • Precisei escrever

    (Wanderer Above the Sea of Fog, Caspar David Friedrich. 1818 – Oil on canvas)

    Deixei as palavras soltas caírem no papel como se deslizassem montanha abaixo. Há três dias, uma voz grita na minha cabeça; quer dizer algo que pulsa: uma voz, não, são muitas! Não sei por onde começar; a gramática me deixa travado. A pontuação me assusta: não posso mais usá-la; o travessão foi roubado e tudo isso é culpa da IA. Culpa? Mas que culpa? O que eles querem é inventar. E assim vão traçando modos, lados, reflexos estranhos, perspectivas que precisamos realmente ampliar.

    O fato é que tenho lido; parei para pensar. Se não tivesse feito, talvez estivesse sorrindo, como tantos, olhando com semblante vidrado, pros lados, pras telas, pro fluxo incessante que parece nunca nos deixar descansar. Nos meus pensamentos, me perco; devaneio, pulo, vou e volto. Mas deixo, permito, logo me vejo à beira do abismo, abismo no qual eu quero mergulhar.

    E, no fundo, me lanço; não temo o perigo. Pior seria ficar no raso, boiando, à deriva, sem rumo ou destino. Precisamos transvalorar, repensar tudo aquilo que já fez sentido, talvez em um tempo distante, mas que agora, diante de nós, parece desabar. O mundo anda esquisito, banal, vulgar; é tanto artifício cravado na alma que tudo se torna estranho; tamanho é o vale que temos que ultrapassar.

    Os humanos perdidos, sem nem um consolo, desamparados, muitos não veem sentido em nada, nem em ninguém. Mas, pelo menos, parei para escrever; despejei o que queria dizer. Queria não, quero, quis! E aqui decido, imprimo, marco e insisto. Por hoje, encerro; amanhã tem mais pra contar.

  • Aniversário

    Aniversário

    A luz âmbar irradiada pelo poste dava à cor da pele dos presentes um brilho etéreo, quase como um sonho. O cheiro de cerveja e de fritura inundava as mesas amarelinhas, com cadeiras de plástico ao redor. O barulho das conversas era embalado por um brega recifense que tocava baixinho ao fundo. Joaquim desceu do carro pela porta traseira direita e viu a massa de convidados.  Seu perfume doce e marcante se espalhava pelo local enquanto ele andava devagarzinho até reconhecer a primeira pessoa sentada.

    — Tudo bom, querida? Quanto tempo… Te vi cantando outro dia na internet. Tava arrasando… — disse a uma conhecida.

    — É, bem aleatória eu tava, né? Deu vontade de postar uma coisinha. As redes tão esquisitas hoje em dia. Só tem influencer e marca.

    — Total. E cadê o aniversariante?

    — Tá ali no fundo, no final da mesa. Vai lá.

    Seguiu caminhando pela longa mesa, formada por várias mesinhas de quatro lugares, todas posicionadas uma atrás da outra formando um longo complexo. O aniversariante estava quase escondido atrás de um convidado, tomando um drink esverdeado, cor de limão, com muito gelo e um canudo pendendo pra fora do copo, que suava no calor daquela noite do eterno verão da cidade.

     — Oi, amigo! Parabéns. Achou que eu nem vinha, né?

    — Passada, tu veio foi… nem esperava mesmo.

    — Pois é, acabou que deu tempo. Terminei as coisas do trabalho logo e nem pensei, coloquei a roupa e tô aqui.

    Seguiu voltando pelo caminho da mesa e, pouco a pouco, acenando para outros convidados que reconhecia. Parou ao encontrar dois amigos mais próximos e sentou-se junto a eles. Entre o vai e vem de conversas banais, seu fluxo de pensamentos foi interrompido quando ele chegou. Sua pele era clara e o cabelo raspado, de forma irregular, principalmente na parte de trás, lhe conferia um corte de cabelo estranho, porém único. Os lábios eram harmônicos, nem muito finos nem grossos; deveriam se encaixar em um beijo que ele ansiava tanto: longo e profundo. Tinha bigode, que era um traço que sempre chamava a atenção de Joaquim em qualquer homem, e um cavanhaque meio ralinho, que dava um charme adicional ao rosto. Os olhos eram castanhos-claros; tinham uma profundidade misteriosa, como os de quem olha para o outro com um semblante de dúvida, de não saber o que quer. Tinha uma aura de mistério, daquelas que intrigam. Ao menos, intrigava Joaquim, que já não era mais nem tão jovem, nem tão bobo, e não acreditava mais nessas fábulas do amor metafísico, platônico, transcendental. Buscava sensações estéticas do real, do palpável, daquilo que o corpo pode proporcionar no momento, no agora, no instante.

    Joaquim imediatamente se levantou do seu lugar e fez como se fosse pegar uma bebida. Na volta, sentou-se do lado oposto da mesa, só para ficar melhor posicionado para a paquera: queria olhá-lo, mirá-lo, como quem atinge um alvo no centro e o perfura. Queria atingi-lo de forma sutil, mas que não pudesse ser ignorado. Manteve-se de pé, junto à mesa, atrás dos amigos, até que, enfim, após alguns instantes, que mais pareciam uma eternidade, seus olhos se cruzaram. A energia psíquica que emanava desse encontro o deixou atordoado, confuso, sem compreender o que acontecia. Ele, que agora era tão racional, se via novamente atravessado por um afeto desconhecido, não pela ideia boba de uma idealização, mas pela perspectiva de um mistério, de algo ou de alguém que ainda não se conhecia; como uma terra distante que ainda não foi explorada. Como a incerteza e a curiosidade de quem chega a um país estrangeiro no primeiro dia e anseia por explorar terrenos ainda desconhecidos. Segurou o olhar por mais tempo do que costumava; geralmente, não conseguia passar de dois ou três segundos olhando nos olhos de ninguém. Era relativamente tímido, não paquerava ninguém em festas, tinha olhos estruturalmente fundos, não de olheiras roxas, mas de uma profundidade cansada dos desencontros da vida.

    Entre indas e vindas, os olhares do rapaz encontravam e desencontravam o seu. E nessa dança estranha, esquisita e hipnótica, continuaram a se encontrar aumentando a dúvida e o mistério. O que ele queria com isso? Queria apenas alimentar o seu próprio narcisismo assim como a maioria das pessoas hoje em dia? Ou será que queria provar algo? Provar algo novo que também o intrigava tanto.

    As horas escorriam pelo relógio como uma tinta oleosa e fresca, escorrendo de uma tela quando aplicada em excesso. O tempo era demasiado fugaz e a efemeridade do instante evaporava diante da noite tropical daquela cidade cálida. Joaquim percebeu que a coisa não ia além disso, mas ansiava por saber o nome dele. Mas o que há em um nome? Um signo que às vezes pode ser roubado: o nome nos é introjetado pelos outros e se instala em nós como uma âncora. Às vezes, diz até onde podemos ir. Uma relação abstrata entre um significante e um significado, que às vezes mitifica esse sujeito, entendido apenas como um, e não como vários. Mas ainda assim, queria saber o nome.

    — Como é o nome daquele boy, amigo? – Perguntou, enfim, ao aniversariante.

    — Ah, esse aí é uma longa história comigo. Ele é hétero, mas temos um lance aí… Mas desencana que ele não fica com homens não.

    E não era sempre assim? Uma longa história com um, ou com outro… Ou já foi namorado do melhor amigo, ou então é ex-namorado de alguém de quem não se pode furar os olhos. A narrativa era uma roleta de valores marcados que sempre caía nas mesmas cartas, como um tarô de destinos preestabelecidos. Um baralho de amor viciado, no qual Joaquim jamais poderia tirar a sorte grande, nem por uma noite que fosse para gozar da vida por um instante.  

    Fez que sim com a cabeça e voltou ao seu lugar à mesa. Durante as horas que decorreram a partir daquele instante, ainda trocaram olhares, sempre nervosos e duvidosos. Mas Joaquim não conseguia mais fitar os seus olhos, não quando sabia que nada daquilo fazia mais sentido. Resolveu distrair-se, como fazia tão bem, com algumas conversas banais do lado oposto da mesa. As trivialidades das conversas jorravam como a cerveja amarela e espumante, derramada nos pequenos copos de vidro americano, típicos de botequim. Irrelevantes. A noite foi desvanecendo, as esperanças minguando, e quando deu por si, já era hora de chamar o carro. Abriu o aplicativo, chamou o motorista e embarcou fechando a porta traseira. Deu uma última olhada pelo vidro fumê do carro; agora sabia que não poderia mais ser visto. Seu olhar, agora, era distante por trás do véu escuro, como um sonho perdido de um lugar que se sabe que nunca vai chegar. A fumaça dos cigarros subia em direção à luz do poste e a efemeridade do instante desaparecia na escuridão da noite. O que restava era apenas uma lembrança do instante.