Seríamos todos neuróticos?

(texto originalmente produzido para o grupo de estudos de filosofia existencial guiado pelo professor Marcus Bruzzo https://www.marcusbruzzo.com.br/ )

​Quando se pensa no termo neurose, há uma associação imediata com a neurose clínica, aquela em que o sujeito apresenta sintomas que causam algum mal-estar ao mesmo tempo em que tem plena consciência de que algo não vai bem. Contudo, em A negação da morte, Ernest Becker vai mais fundo ao postular que “a neurose é um outro termo para indicar o problema total da condição humana”. O capítulo do qual o trecho supracitado foi extraído é, com certeza, um dos mais marcantes da obra, pois lança luz e abre uma reflexão para que nós, enquanto sujeitos modernos, possamos pensar quais são as nossas formas de neurose da vida cotidiana, por que elas surgiram e qual a melhor maneira de conviver com elas, uma vez que, segundo Becker, é praticamente impossível para um sujeito moderno viver completamente livre delas.

(A Persistência da Memória, Salvador Dalí. 1931 — Óleo sobre tela)

​Mas por que somos neuróticos? O que traz esse mal-estar na civilização tão brilhantemente elucidado na obra de Freud? Com base em uma perspectiva evolucionista darwiniana, acredito que poucos discordariam de que a aversão de qualquer organismo vivo à sua própria aniquilação seja um elemento essencial, portanto instintivo, que garante a continuidade da vida. Percebe-se isso quando estamos em uma situação de vida ou morte: pensemos em alguém que sobrevive após ficar preso no elevador de um prédio em chamas. Costumamos dizer que “vemos a nossa vida inteira passar como um flash diante de nossos olhos”. Usei deliberadamente este exemplo por ter vivido essa situação aos oito anos de idade, com meus pais.

Contudo, o Homo sapiens é uma espécie que não opera apenas por instinto. Somos seres autoconscientes, dotados de metacognição, ou seja, pensamos sobre nossos próprios pensamentos. Essa particularidade do ser humano nos torna criaturas extremamente simbólicas e criativas, o que nos permite desenvolver elaborações psíquicas complexas.

​Um dos argumentos que o autor sustenta é o do medo, ou terror, da morte como a mola central que impulsiona todas as motivações humanas. Parece-me muito coerente essa perspectiva de pensamento apresentada, assim como a maneira como ele cita outros autores para construir seu raciocínio. Tome-se, por exemplo, a passagem em que ele cita Zilboorg: “porque por trás da sensação de insegurança diante do perigo, por trás do sentimento de desânimo e depressão, sempre se esconde o medo básico da morte, um medo que sofre elaborações muitíssimo complexas e se manifesta de muitas maneiras indiretas”.

​Essas elaborações, segundo a tradição psicanalítica freudiana, surgem sob a forma de recalque e deslocam esse medo primário da nossa finitude para o plano do inconsciente, de maneira transfigurada. Pois, como observa Zilboorg, seria impossível operar de forma funcional na civilização se estivéssemos sempre conscientes desse temor, já que ele consumiria grande parte da nossa libido, a energia psíquica vital. Essa constatação que Becker nos traz é profundamente intrigante ao afirmar que “a neurose é a tragédia moderna do homem: historicamente, ele é um órfão”. Isso me remete, inclusive, ao pensamento da brasileira Viviane Mosé, que, a partir de Nietzsche, nos explica que a nossa civilização moderna desaba sobre as nossas cabeças. Nas palavras da autora, “o que desintegra não é o mundo, e sim um ideal de mundo e do ser humano que nasceu do medo do tempo e da morte, do horror diante do desconhecido” (MOSÉ, 2019, p. 21).

(O Grito, Edvard Munch. 1893 — Têmpera e pastel sobre cartão)​

Portanto, o ser humano torna-se “doente de si mesmo” (NIETZSCHE, [1887] 2019 apud MOSÉ, 2019, p. 39) e desenvolve todos esses comportamentos simbólicos com vieses narcísicos de continuidade de sua própria vida, o que Becker, na obra, chama de “projeto causa sui”. E por essa via podemos constatar que algumas epistemes da modernidade, como o marxismo, a psicanálise e o positivismo, entre outras, ao se tornarem herméticas e tão certas de si próprias, podem se aproximar mais de um tipo de pensamento mítico-religioso do que se poderia supor em primeira análise.

​Referências:

BECKER, Ernest. A negação da morte: uma abordagem psicológica da finitude humana. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro: Record, 2007.

MOSÉ, Viviane. A espécie que sabe: do Homo sapiens à crise da razão. Petrópolis: Vozes, 2019.

NIETZSCHE, Friedrich. A genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Brasiliense, 1998.

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