Não tive filhos.

Eu não tive filhos! Falando assim, parece até que eu já morri. Risos. O pensamento me veio à tona enquanto lia o livro do Gregório Duvivier e, de repente, cheguei ao vocábulo “puerpério”. Esta estranha e desconhecida palavra, definida no dicionário como: “período que se estende do parto até que os órgãos genitais e as condições gerais da mulher estejam normalizados”.

(Preciso abrir um parêntese: o livro, organizado em breves capítulos, aborda, de forma engraçada e afetuosa, diferentes termos do léxico da língua portuguesa; sem dúvida, uma leitura leve e prazerosa recomendada a todos).

(Esperança I, Gustav Klimt. 1903 — Óleo sobre tela)

Foi quando me deparei com uma série de palavras que adentravam o universo alienígena do recém-nascimento de um bebê. Pelo menos para mim! Orbitando ao redor do puerpério — para me referir aqui ao universo espacial que Gregório usa em seu texto — estão termos como crosta láctea, mecônio, vérnix caseoso, apojadura e colostro, só para citar alguns. Não sei por que, mas ultimamente tenho achado ainda mais fascinante essa relação entre as “Palavras e as coisas”, como disse Foucault no título de um de seus livros. Essa relação simbiótica entre o léxico e os fenômenos da natureza e da realidade que a linguagem propõe-se a descrever. Não vou adentrar este universo de reflexão porque não era minha motivação principal ao iniciar esta crônica, mas é intrigante como os limites da nossa compreensão talvez acabem sendo sempre os da nossa linguagem, como diria Wittgenstein. Nesse jogo de palavras que fazemos quando concebemos as coisas e tentamos nomeá-las.

O fato é que, neste mergulho que fiz, por meio do texto, no universo léxico dos bebês, ocorreu-me a quantidade de amigos e amigas, homens e mulheres, que tiveram bebês recentemente. O Igor e a Bruna tiveram a Mel; a Faygha e o Eduardo, a Arya; a Aline e o Romero, o Horácio; a Iohanna e o Luiz Paulo, a Malu; a Olga e o Lucas, a Eva; e a Julia e o Pedro, a Bruna. E eu não tive ninguém. E nem quero! O leitor vai pensar que sou um tanto ranzinza — e, bem, talvez seja mesmo — mas não vejo isso como um insulto, talvez seja um tanto de sanidade.

Eu até me admiro e acho louvável a empreitada de trazer uma nova vida ao mundo. É, de fato, uma missão árdua e perpétua, pois acredito que nenhum pai ou mãe deseje que o filho venha a óbito antes da própria partida deste planeta. Desse modo, ao conceber o projeto de um filho, já se tem consciência de que este será um vínculo eterno até a morte. Ou assim, se espera.

Imagino, porém, os corações aflitos desses jovens papais e mamães diante do cenário de crise global. Poxa, logo na minha vez de ser adulto! — Eles pensam e com razão, pois ninguém deveria ser privado desse prazer de reproduzir e gerar uma nova vida, algo que dá sentido à própria existência de tantos humanos. Mas a vida é mesmo um fenômeno complexo. Um agón, como diriam os gregos, é essa eterna batalha ou conflito que acaba por ser a mola propulsora da própria vivência. Ora, pense numa narrativa ficcional: sem conflito, não há história. Tudo fica parado e sem sentido. Assim é na nossa vida: faz-se necessário este desequilíbrio que, de alguma forma, nos faz buscar continuar a nossa existência que carece de significado inerente.

Bem que podia ser mais fácil, não é? Viver numa utopia, com direitos garantidos a toda a humanidade. Que pudessemos gozar do pleno ir e vir, e de todas as maravilhas que o nosso planeta azul pode nos oferecer. Estar também em paz e em harmonia com a força divina da natureza. Fazer as pazes com o mistério da vida, sem tentar sempre decifrá-lo nem sequer explicá-lo, como já se empenharam tantos teólogos, filósofos e pensadores. Mas, sim, aceitar que o mistério é justamente aquilo que não pode ser explicado, pois os limites da compreensão da realidade são as barreiras da linguagem, como citei anteriormente, no pensamento de Wittgenstein.

Talvez eu seja, de fato, como o Brás Cubas de Machado: nem me casei e também “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”, mas sigo, pelo menos, feliz na certeza do mistério. Aceitando essa loucura que é a vida, e afirmando-a apesar de todos os puerpérios.

  • Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada com o aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.
  • Aos pés da letra – Gregorio Dudivier — https://link.amazon/B0fNtkXnp

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