Turbo-tecno-macho-nazifascismo

Recentemente, há não mais de duas semanas, se não me falha a memória, assisti a um vídeo em que o brilhante professor e filósofo brasileiro Vladimir Safatle fazia um comentário pertinente. A fim de evitar distorcer as palavras dele, não farei uma citação direta, mas, de forma geral, posso dizer que ele questionava a audiência que o assistia se haviam reparado em quantos livros com a palavra fascismo no título haviam sido publicados nos anos recentes.

(O Três de Maio de 1808, Francisco de Goya. 1814 — Óleo sobre tela)

Para ilustrar meu ponto, cito apenas alguns: Uma breve história das mentiras fascistas, de Federico Finchelstein; Fascismo à brasileira, de Pedro Doria; O fascismo em camisas verdes, de Leandro Pereira Gonçalves e Odilon Caldeira Neto; Crítica do fascismo, de Alysson Mascaro; As novas faces do fascismo, de Enzo Traverso; Aspirantes a fascistas, também de Federico Finchelstein; e História do fascismo, de Emilio Gentile.

Poderia continuar aqui indefinidamente, pois estes são apenas alguns dos títulos publicados no Brasil de 2020 até agora. Se ampliarmos o escopo para obras em outras línguas, o número será certamente muito maior. De qualquer modo, o que Safatle queria provocar no seu discurso era o seguinte questionamento: por que se escreve sobre esse tema no século XXI? Não seria o nazifascismo um fenômeno que ficou para trás nos livros de história e na decadência do século XX?

Alguns (leia-se: os próprios cúmplices do fascismo contemporâneo) dirão que o uso do termo é um exagero, mas, como afirma Safatle, é necessário dar nome aos bois. Ele não afirmou exatamente com essas palavras, como mencionei anteriormente, mas faço aqui mais um jogo de linguagem bobo para tentar arrancar uma risada do leitor, afinal gado é coletivo de boi.

Como tenho feito por aqui, faz-se necessário recorrer à semiótica para explicar novamente o seguinte: o significante, isto é, no caso da linguagem, a palavra, é arbitrário. Ou seja, a relação entre a palavra fascista e o significado que o conceito carrega decorre de uma associação que, aparentemente, vai além de qualquer relação lógica.

Simplifico e dou exemplos a seguir. A palavra é de origem italiana (vide a grafia com “sc”) e deriva de fascio, que significa “feixe” e, por extensão, “grupo, liga, associação”. O termo italiano, por sua vez, vem do latim fascis, “feixe de varas”. Na Roma Antiga, os fasces (plural de fascis) eram feixes de varas amarradas em torno de um machado, cuja lâmina ficava à mostra:

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(Ilustração: autor desconhecido)

O objeto era um símbolo de autoridade tanto dos sacerdotes quanto dos magistrados (aqueles que ocupavam cargos públicos eletivos, como cônsul ou pretor). Está fora do escopo desta crônica discorrer sobre a evolução do termo desde a Antiguidade até o momento em que foi usado para designar o regime autoritário que conhecemos do século XX, encabeçado por Mussolini na Itália e, posteriormente, transposto para a Alemanha nazista.

O ponto importante é que o termo passou por um longo processo histórico de ressignificação ou, como diria Charles Sanders Peirce, um dos autores mais relevantes nos estudos da semiótica, tem ganhado novos sentidos por meio da semiose ilimitada. Ou seja, potencialmente, o processo de significação pode continuar infinitamente, como ele especifica neste trecho:

“Qualquer coisa que conduz alguma outra coisa (seu interpretante) a referir-se a um objeto ao qual ela mesma se refere (seu objeto), de modo idêntico, transformando-se o interpretante, por sua vez, em signo, e assim sucessivamente, ad infinitum” (PEIRCE, 2020, p. 74, §303).

Em linguagem simples: as palavras vão sendo usadas e reutilizadas ao longo da história, sofrendo alterações de significado, adquirindo novas nuances de sentido, alterando suas conotações e sendo aplicadas em diferentes contextos nesse complexo jogo que é a linguagem.

Recentemente, li “Como conversar com um fascista”, da grandíssima filósofa brasileira Marcia Tiburi, obra na qual ela se dedica a explicar a importância da escuta empática e a necessidade de continuar buscando janelas de diálogo, principalmente com aqueles que ainda não foram completamente dominados pela ideologia fascista. E hoje comecei a ler outro de seus livros, intitulado “Como derrotar o turbo tecno macho nazifascismo”. Repare como ela brinca com o termo, construindo um novo significante: uma espécie de megazorde, turbo-tecno-macho-nazifascismo. O título, além de muito chamativo, é também uma demonstração de como esses significados vão sendo empilhados, construindo novos conceitos, como escrevi anteriormente. Já na primeira página a professora Marcia vai dizer o seguinte:

“De qualquer modo, um conceito sempre pode ser renovado para fins de análise de fenômenos em tempos diversos. Caindo em armadilhas fundamentalistas, é fato que muitos não aceitavam que o termo fosse usado de modo ampliado, aliás, como fazem vários teóricos desde o tempo de Mussolini e Hitler.” (TIBURI, 2020, p. 11).

Voltando ao meu eixo central, não é porque um termo vai se atualizando e ganhando novas características e contornos que ele não pode ser reconhecido e utilizado com a clareza com que a autora o faz, como no exemplo anterior. Quanto a Safatle, ele vai dizer, em ‘A ameaça interna’, que esse medo de usar a palavra ‘fascismo’ talvez derive da nossa própria recusa em aceitar que o que conhecíamos como democracias liberais é um modelo que já não se sustenta. Na mesma obra, ele vai além, concluindo que:

“Nomear o problema de forma correta, por mais terrível que seja, sempre foi e continua sendo a única maneira de efetivamente lutar contra ele.” (SAFATLE, 2025, p. 39).

Em resumo, caros leitores, não tenham medo de dizer o óbvio: o que está em curso no mundo é uma transmutação da ideologia que já conhecemos como fascismo. Nem é necessária uma lupa muito grande para ver o que está à nossa frente, pois os sinais são muito claros. Todas as características de um discurso e de uma retórica autoritários estão presentes. Gabarito fechado. E, como bem disse uma colega professora ontem, no intervalo da aula, na sala dos professores, o fascismo nada mais é do que o botão de emergência do capitalismo decadente.

  1. Vladimir Safatle, A ameaça interna (SAFATLE, 2025, p. 39) — https://link.amazon/B08aI0IvX
  2. Marcia Tiburi, Como derrotar o turbo tecno macho nazifascismo (TIBURI, 2020, p. 11) — https://link.amazon/B028CmUcg
  3. Marcia Tiburi, Como conversar com um fascista (TIBURI, 2015) — https://link.amazon/B0a93ZeXJ
  4. Charles Sanders Peirce, Semiótica (PEIRCE, 2020, p. 74, §303) https://link.amazon/B0cc4pcaH
  • Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada pelo aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.

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