Ontem andei, horrorizado, pela minha própria rua e, para meu espanto, estava tomada de fascistas. Saíam por todos os lados: viravam as esquinas e vinham dos becos, dos bueiros e das galerias. De cima e de baixo da ladeira, e de todas as direções por onde eu olhasse. Não trajavam preto, vermelho nem branco. Tampouco tinham uma suástica estampada no ombro ou no peito. Veja como os signos são completamente arbitrários, como disse Ferdinand de Saussure. Ou seja, não há uma conexão inata entre um significante (seja ele uma palavra ou uma cor) e um significado (a ideia mental que ele representa). Tudo é social e historicamente construído. Mas sim, eram fascistas, inconfundíveis, em uma versão tupiniquim: trajavam, em sua maioria, camisas verdes e amarelas da seleção brasileira de futebol, ou simplesmente as cores da bandeira nacional. Buzinavam repetidamente, de dentro do conforto de seus carros, irritando todos os pedestres e alguns de seus pares, os abestalhados, que andavam pela rua, mas claramente não tinham o mesmo privilégio de estar no carro.

Antonio Henrique Amaral, Boa Vizinhança, 1968.
Como bons fascistas, a maioria, completamente inconsciente do que faz, sequestrou, portanto, os símbolos nacionais em nome de uma promessa de futuro melhor. Um futuro do pretérito, pois o cerne da ilusão romântica é sempre o retorno ao passado idealizado em que tudo já foi melhor um dia. Melhor para quem? Repito: para quem foi melhor a história desse país no passado? Para os senhores de engenho e os donos das capitanias? Para os senhores que compravam e vendiam pessoas escravizadas vindas de África como se fossem mercadorias? Para os generais e comandantes que governaram o período mais sombrio da nossa história nacional durante a ditadura militar? Para os colonizadores que roubaram quase toda a nossa madeira, que acabou por dar nome à nossa terra, levaram todo o ouro das Minas que agora ilumina as igrejas de Portugal, e cometeram um genocídio contra os povos nativos e originários de nossa terra amada?
O que esses fascistas que vi na rua fazem, inconscientemente, é, portanto, um segundo processo de semiose: a mitificação. Explico, caro leitor, sem tanto jargão e de forma mais acessível. Roubam! É isso que fazem de melhor! O espírito fascista, pobre de estética e de referências, não sabe criar nada de original! Alimenta-se de tudo o que foi produzido pelos outros, assim como a inteligência artificial, que rouba de todos os artistas, escritores, poetas e pessoas que já produziram algo de bom. Exemplo: o próprio símbolo máximo do Nazismo alemão, a suástica, não era originalmente alemã. Na verdade, já era usada há aproximadamente 5.000 anos em civilizações da Antiguidade, sendo comum ao budismo e ao hinduísmo, para citar apenas algumas correntes. O seu significado girava em torno de conceitos como o bem-estar e a boa sorte.
O que Hitler faz em 1920, ao se apropriar do símbolo e torná-lo o emblema de sua ideologia nazifascista, é, portanto, o que Roland Barthes chamou de mitificação. Sim, eles nem sabiam, mas, lá em 2018, eles realmente estavam criando um mito. E Barthes não está se referindo aqui a histórias fantásticas ou abstratas. O que ele quer dizer é que o mito é uma fala ou um discurso que naturaliza signos como se fossem simplesmente naturais. Voltando ao nosso contexto: as cores verde e amarelo têm representado a direita extremista brasileira desde 2018. Mas não há nada de natural no mito!
A mitificação é sempre um truque. O que ela faz é esvaziar o significado de algo pré-existente, roubando, assim, o controle sobre o que aquilo representa e encharcando-o com um novo significado, geralmente o da ideologia das elites dominantes (burguesas). Portanto, esse modo de significação é uma espécie de distorção da realidade. E Barthes vai além, ao dizer que o mito se localiza na direita (especialmente essa antidemocrática e fascista):
“Estatisticamente, o mito se localiza na direita. É aí que ele é essencial: bem-alimentado, lustroso, expansivo, falador, inventa-se continuamente. Apodera-se de tudo: justiças, morais, estéticas, diplomacias, artes domésticas, Literatura, espetáculos. A sua expansão tem a exata medida da omissão do nome burguês. A burguesia pretende conservar o ser sem o parecer: é, portanto, a própria negatividade do parecer burguês, infinita como toda a negatividade, que solicita infinitamente o mito.”
(Barthes, Mitologias, p. 241)
Uma vez compreendido isso, fica fácil entender meu horror ao ver a rua tomada por fascistas. Sei que aqui no Nordeste eles ainda são minoria e que assim seja. Mas sei também que muitos deles reproduzem ideias e conteúdos sem ter noção do que se trata. A sua única bibliografia tem sido a pobreza das redes sociais. Imagine o caos de referências: tico e teco e insta-grana. Acreditam de maneira infantilizada, como diria Freud, no futuro de uma ilusão. Têm um delírio narcísico de sua própria onipotência, ao mesmo tempo em que tudo o que mais querem é o aconchego de uma mãe e de um pai. Alguns são frágeis, dignos de compaixão. A maioria não sabe, mas está apoiando um movimento que visa ao seu próprio aniquilamento. A célebre frase: “A barata votou no inseticida”.
Basta olhar para a nossa história e perceber que, como filhos dessa terra, temos uma obrigação ética, moral, filosófica e espiritual de trazer paz aos nossos ancestrais e ao povo brasileiro, tão batalhador e conhecido por nunca desistir! Pois então, meus caros companheiros, que possamos, em primeiro lugar, ter compaixão pelas vítimas diretas e indiretas dessa ideologia nefasta, que convence uma maioria pobre, preta e periférica de que é melhor idolatrar o burguês do que se entender como classe trabalhadora e lutar pelos seus direitos. E, em segundo lugar, que continuemos a usar as armas do saber para criticar, repensar e lançar luz sobre as trevas que ameaçam o futuro de nossa nação. O resultado de domingo pode afetar nossa vida de diversas maneiras, mas independentemente do que aconteça, tenho certeza de que há muita gente esclarecida nessa pátria. De todas as cores, credos e classes sociais. Trabalhadores e trabalhadoras, filhos e filhas dessa nação, que nunca fugirão à luta pelos nossos direitos e pela perspectiva de um futuro realmente melhor.
Referências
BARTHES, Roland. Mitologias (1957). Rio de Janeiro: Difel, 2026. Disponível em: https://link.amazon/B0c4QyPR6
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão (1927). Disponível em: https://link.amazon/B02H076f2
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral (1916). Disponível em: https://link.amazon/B0gNeHrWs
Imagem: Antonio Henrique Amaral, Boa Vizinhança, 1968.
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