Farol Literário

Reflexões sobre as interfaces da Arte, da Filosofia e da Literatura.

O agridoce sabor do café

Caminho pela penumbra prateada que o fim da madrugada ainda traz. Poderia ser muito tarde, mas é deveras cedo. Às vezes eu nem sei. Tateando as paredes até a cozinha, toco com as mãos em copos, vidros e taças, todos bagunçados sobre a mesa. Um caos. Sinto o ladrilho frio e áspero sob os meus pés. Os olhos se recolhem ao contato com os primeiros feixes da lamparina amarelada assim que acesa. Os gestos, já subconscientemente programados, iniciam uma delicada dança: levanto o braço, abro o armário, puxo o saco de café. O aroma tão desejado, doce e cítrico, invade minhas narinas enquanto as papilas gustativas inundam a boca; vou do seco ao molhado. Ainda nem bebi um copo d’água, mas já anseio pelo gosto amargo do café.

Aos meus trinta e poucos anos, a eterna dança continua dia após dia. Acendo a labareda do fogão, abro a torneira e encho o pequeno e enferrujado bule de água. Me sento e espero. É necessário um bom livro para não desperdiçar os primeiros momentos após o despertar. ‘A morte em Veneza’ me acompanha esta semana. A lucidez das alvoradas, por vezes, traz epifanias. A literatura, então, embala e conduz; é aquilo que me permite fantasiar. As sinapses vão sendo feitas devagarinho, a princípio muito lentas, mas vão acelerando aos poucos, em compassos simétricos. Enquanto isso, nos meus não tantos anos, ainda desejo sentir aquele sabor fresco que desabrocha dos grãos.

Edward Hopper, Janelas à Noite, 1928.

Uma vez filtrado, já o degusto. O cheiro forte invade as narinas e o líquido quente me desce como um abraço. Continuo a leitura enquanto, pelas nuvens, os primeiros raios já atravessam e anunciam o dia.

É nesse exato momento que, pela estreita janela da cozinha, eu o vejo ao fundo. Não tão distante, através das portas duplas de vidro entreabertas da varanda do apartamento vizinho. Ele também caminha pelo corredor, na luz prateada etérea de um sonho, como num devaneio invertido. No colo nu, vejo os ossos pontiagudos da clavícula contra a rigidez dos seus fortes músculos do peito. Veste apenas um short de pijama curtinho, de algodão azul-marinho; penso que deve ser confortável naquela pele macia. Cada fibra do tecido em contato com suas intimidades. Os pés descalços me parecem grandes e másculos, talvez tamanho 44. Pelo porte do corpo, não deve ter mais de dezoito anos. Apesar da distância, vejo os seus contornos e vislumbro os pelos que descem do seu umbigo em direção à eternidade. Levando a xícara aos lábios, degusto mais um gole, a boca cheia, pensativo.

De supetão, me assusto quando ele demonstra que também me vê, como alguém que se vê no reflexo: uma imagem espelhada, presa no vidro. Cheio de curiosidade, mirando uma versão de si mesmo do outro lado do olhar. É outro que me avista, mas não sei se pode me compreender. Há um abismo entre nós. Acho que percebemos a alteridade quando esbarramos na fronteira ilusória do eu. Me levanto e apago rapidamente a luz âmbar para me esconder; temo que perceba que o estou observando. Quero admirar sua beleza, mas receio ser visto. Vou caminhando nas últimas sombras que ainda me restam pela cozinha e pelo corredor, a fim de me disfarçar, sem saber se é possível me esconder ou me enganar. Pela janela, avisto também os cobogós do lado de fora do apartamento, o vento sussurrando delírios por todas as frestas, atravessando-as. Então, pego um copo grande cheio de água e vou bebendo, gole a gole, com muita sede, como quem acaba de atravessar um longo trecho de solo arenoso. Preciso me hidratar. A solidão é um deserto.

De maneira discreta, continuo observando, pelo canto do olho, o que acontece ali em outro lar. Lembro que já o vi outras vezes. Sei que, apesar de não ser mais tão jovem, ainda mora com um casal que talvez seja seu pai e sua mãe. Contudo, nunca o vi à luz do meio-dia nem nas horas vespertinas. Talvez esteja no trabalho ou na faculdade, ou quem sabe, seja uma criatura noturna, alguém que só se apresenta tarde da noite ou nos primeiros raios da manhã. Antes da aurora se anunciar. O fato é que ele estava sempre ali. Sim, eu já o havia visto. Ou será que o desejo era tão grande que eu começara a imaginar?

Sorrateiro, me abaixo como um gato andando nas pontas dos dedos. Me movo rápido e em segredo. Me apoio no parapeito e continuo olhando. O coração agora pulsando mais rápido, a cafeína acelerando a frequência cardíaca, as veias se inflando de sangue e dilatando o meu pecado. Me sinto maior, pleno de vida, mais largo. Já não caibo nos mesmos lugares.

René Magritte, O Império das Luzes II, 1950.

Aguardo mais alguns instantes, em vigília, enquanto espero que ele saia do que, aposto, é o banheiro. Afinal, acaba de passar com uma toalha de banho felpuda na mão. Talvez esteja a tomar uma ducha quente, ainda sonolento e com a preguiça matutina do despertar. Ou quiçá seja um banho frio, com a água gélida eriçando todos os pelos, até os debaixo dos braços e os mais fininhos que cobrem a nuca. O arrepio de um beijo. Os mamilos, levemente corados e contrastando com a pele branca, enrijecem-se com a frieza dos pingos.

De repente, a porta se abre e o inesperado acontece: está nu, em pelo, o membro pendendo solto à sua frente na meia-luz do amanhecer. Sem se dar conta de que o observo, pois ainda continuo escondido, perambula pela sala por todos os lados. Parece estar procurando algo na mesa. Olha embaixo das revistas e dos livros. É quando finalmente encontra o que buscava: uma carteira de cigarro. Atravessa outra porta, que talvez seja a cozinha, e volta com a haste acesa pendurada nos lábios. Meu coração, agora a bombear tanto sangue, quase me dá vertigens. Penso que vou desabar. O suor pingando das têmporas me deixa molhado. Meu corpo inteiro transpira, até o falo.

Exasperado, quase não me sustento. Solto um suspiro em silêncio e tento aliviar-me. Vejo que ele caminha até a varanda e se senta numa cadeira. Com as pernas semiabertas, vejo seu centro nos primeiros raios inocentes do dia. Ele continua assim, tragando o cigarro e, entre os lábios, baforando aos ventos a sua juventude. Parece pensativo, quem sabe um tanto distante? Será que ele também fantasia? E caso sim, com o quê? Cada um carrega em si um inconsciente inteiro de maravilhas. Há tanto nas camadas mais profundas. Um oceano inexplorado. A cena completa não dura muitos instantes; é breve e efêmera como a pequena morte dos franceses ou a própria vida.

Quando finalmente ele se vai, decido que chega, basta! Preciso seguir a jornada; afinal, os afazeres me chamam, e a luz plena do dia já não é um mero anúncio. A claridade desfaz os sonhos, esgarça os fios de ilusão e a realidade crua grita em meio ao céu. Vou depressa também rumo ao banho, que deve ser gelado. Preciso acordar e ir ao trabalho. Não se pode viver numa quimera. A seguir, a água me torna novamente lúcido, enfim, de volta a mim mesmo e às coisas triviais. Lembro-me de que não fui ao mercado ontem; não há nada para comer além dos grãos. A fome agora toma conta dos meus instintos e me deixa fraco. Preciso de ovos, pães, queijo, presunto e manteiga fresquinha. Um aconchego na alma e a certeza de um abraço.

Antes do ofício, resolvo ir à padaria, aquela da esquina de casa. Da senhorinha simpática, vestida de flores, sempre no caixa ou atendendo os clientes do bairro. O pão fresquinho sai da fornalha assim que chego; o aroma dourado seduz o olfato. Caminho tranquilo pelas gôndolas, navegando entre tantos produtos expostos, escapando dos clamores de um estômago vazio. Recomenda-se não ir às compras com fome; há sempre o risco de sair levando tudo o que se vê, deixando o desejo prevalecer. Reparo que, hoje em dia, tem de tudo nas padarias — parecem até minimercados. Pode-se comprar de tudo; até o que é humano vira produto.

É então que me assusto. Não respiro por alguns segundos e tudo se interrompe como uma falha. Ali está ele em pessoa. O vejo na fila ao lado do caixa. É mais alto do que imaginava. Mas sim, é ele. Não pode ser outro. Agora vejo os detalhes do seu perfil: o nariz afilado, os lábios carnudos na boca desenhada. Modelado por um artesão caprichoso. De perto, é ainda mais galante do que pensei. Agora veste outro short, não o do pijama, um tipo esportivo, e uma regata, deixando os braços fortes à mostra. Os dedos dos pés, delgados, calçando sandálias brancas, empoeiradas pela fuligem da rua. Ao seu lado, uma mulher que, pela semelhança, só pode ser a sua mãe. Alta e magra, não é tão velha. Deve ter apenas um pouco mais de idade do que eu.

E fico ali, escondendo-me atrás das prateleiras com receio de que possa me ver. Em vão, pois instantes depois, nossos olhares se encontram e me dão um choque. O cruzamento me eletrocuta. Penetra meu imaginário, me transporta. Circulamos no abstrato, nas mesmas órbitas. Chego a pensar se… Será que ele sentiu também? Por alguns segundos, fico imobilizado, ainda bem que estou parcialmente atrás de algumas prateleiras de café. O encaixe dos olhos se deu entre algumas sacas de grãos de arábica, de sabor mais suave e adocicado. Tudo isso transcorre, no que me parece, ao mesmo tempo, no intervalo de uma eternidade e na brevidade do instante.

Quando finalmente consigo sair desse enlace, me movo e caminho, atordoado, entre as outras fileiras abarrotadas de salgados, bolos, tortas e suspiros. Ahh! Doces e azedos. Sonhos de padaria também. A curiosidade ainda me leva pelo cabresto. Desejo vê-lo por mais um instante, mas quando finalmente chego a um ponto que julgo estratégico, ele já se foi. Não vejo mais ninguém ali.

Amuado, pago tudo o que coloquei na cesta, sem dar nem um sorriso à pobre atendente do caixa. Caminho em pedaços, arrastando os pés, fazendo muito esforço para subir a rua inclinada. Quarenta e cinco graus. O pensamento escorrega sem controle ladeira abaixo. Retorno ao apartamento, aos cacos, sem filtro de esperança. Já não posso mais emendar meus retalhos. Ao fim, me deito. O relógio, ingrato, me lembra que é hora de ir trabalhar. Angústia no peito. Demoro mais alguns instantes; o silêncio me persegue. A pequena morte vai chegando e o desânimo me domina. As luzes vão se apagando. Acho que, sem tomar mais um café, não vai dar para aguentar.

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