O relógio já marcava onze horas e quarenta e sete minutos. Era manhã de uma quarta-feira ordinária e ingrata, e Dona Carlota, como todos a chamavam, ainda não tinha se levantado da cama. Jazia inerte, em meio ao frio artificial do ar-condicionado e à ressaca dos tranquilizantes, embrulhada nos lençóis de algodão egípcio de 400 fios. Vivia ali no alto da torre, no vigésimo andar de um edifício residencial na Rua da Aurora.

(As Criadas, Paula Rego. 1987 — Acrílico sobre papel montado em tela)
A porta de seus aposentos ainda não se abrira enquanto a murfina empregada doméstica se movia freneticamente, tentando, em vão, aspirar todo o pó da sala antes que a patroa acordasse. Rizelde era pequenininha, baixinha e muito magra. Tão frágil que uma rajada brusca poderia parti-la ao meio; talvez não um vento, mas a queda de uma escada — uma dessas, sim, esfarelaria seus ossos. Tinha o rosto afilado; não era feia, mas muito mal cuidada. Esquecida pela vida. Estava mais nervosa do que o normal naquela quarta-feira comum; ainda não limpava minuciosamente todos os copos, de água e de whisky, as taças de vinho branco e tinto, muito menos os pratos rasos, nem os fundos, os de bolo e porta-doces, bules e jarras de porcelana e cristal. Dona Carlota era uma mulher muito exigente; deixava claro que, quando a faxina terminasse, tudo teria de estar imaculado. O teste seria, então, vestir uma luva de seda branca e passar o dedo pelos móveis e pelos vidros que deveriam estar tinindo. Caso houvesse qualquer sinal de imundície, a poeira que se acumulasse na luva seria então depositada num bule de chá e a infusão de sua preguiça seria servida a Rizelde para beber. Só assim a criadagem fazia um bom serviço — acreditava Dona Carlota. Ironicamente, as paredes de vidro do closet de seu quarto sempre ficavam amareladas pela fumaça de centenas de cigarros que ela fumava todos os dias. O ranço carbonizado da nicotina, entranhado nas poltronas e nas cortinas, misturava-se ao cheiro pungente de um esdrújulo perfume francês. Tinha também uma furona, sim, a fêmea de um furão, como animal de estimação que, apesar de se parecer muito com um roedor, pertencia a outra família de animais. Roedor ou não, o fato é que vivia solta pelo apartamento a cagar o piso por toda parte fazendo Dona Carlota, muitas vezes, deixar rastros de fezes pelo caminho do quarto.
A Ruiva, cozinheira da casa, ainda não chegara, o que preocupava Rizelde ainda mais, pois, com certeza, todo o serviço do dia estaria atrasado. O dia mal começara e tudo já parecia desandar. Foi quando, de repente, a grande e pesada porta principal do apartamento se abriu com um solavanco. Dr. Jorge irrompeu pela passagem, os passos das pernas gordas e pesadas fazendo um barulho descomunal no apartamento de baixo. Era um cinquentão tosco e atarracado, com a pele oleosa e um corte de cabelo inexistente: a calvície tinha-lhe consumido todo o cocoruto e restavam apenas fios esquisitos, como os de uma boneca velha, nas laterais. Perguntou então a Rizelde se Dona Carlota ainda não tinha acordado e ela lhe respondeu que tudo indicava que não. Caminhou a passos largos até a suíte do casal e a acordou com um berro: — Mas que diabos estás a dormir a uma hora dessas? Levanta-te, mulher! Rizelde então ouviu os berros vindos do quarto do casal. Brigavam religiosamente todos os dias e, mesmo com tanto dinheiro, ninguém jamais poderia invejar a pobre vida daquela mulher rica. Era de fato infeliz.
Rizelde e a Ruiva tinham um pacto secreto. Roubavam sistematicamente insumos da despensa, algo que a patroa jamais percebia. Dona Carlota tinha praticamente um quarto anexo à cozinha, abarrotado de comida. Frutas frescas da estação, que deveriam ser trocadas assim que apresentassem qualquer sinal de amadurecimento avançado. Pães, bolos e tortas. Biscoitos finos, massas italianas artesanais de grano duro, suplementos de colágeno hidrolisado, cápsulas de café de edição limitada, azeites artesanais de vários países e potes de vidro herméticos com etiquetas personalizadas. Uma orgia. Era tão obscena a extravagância que, comparada à pobreza em que as domésticas viviam, e tendo em mente que Dona Carlota jamais percebia a falta de nenhum item, não havia nada mais justo do que usurpar alguns itens dessa despensa e levá-los para casa. Uma subtração necessária para corrigir a injustiça da vida.
Após o meio-dia, a Ruiva finalmente chegara e, junto com Rizelde, já estava a cuidar das tarefas domésticas. Trabalhavam diligentemente a todo vapor. Dona Carlota levantou-se mais abusada do que o normal, mas parecia um pouco aflita. Não proferiu a meia dúzia de impropérios que costumava dizer pela manhã sobre as notícias do jornal. Não colocou a culpa no governo por o país andar devagar em meio à crise, muito menos criticou a classe artística nem cometeu nenhuma injúria racial. Tampouco alucinou ao afirmar que a crise climática era apenas uma teoria da conspiração ou que a Terra era plana. Parecia anestesiada, para além do habitual. O marido não se demorou muito em casa e já saíra, o que a deixou ainda mais aflita.
Eis que Dona Carlota, para surpresa das empregadas e, principalmente, de Rizelde, a chamou no canto da cozinha e sussurrou:
— Tu conheces alguma macumbeira, Rizelde? Lá perto do teu barraco deve ter…
— Comunidade, Dona Carlota! Comunidade! Não é barraco que se diz.
— Sim, comunidade, que seja! Conheces?
A Ruiva, com as sobrancelhas arqueadas, escutava por trás da porta da sala, curiando a conversa. Rizelde então disse que sim, que conhecia uma boa macumbeira: o nome dela era Rosa. Fazia ou desfazia qualquer trabalho, abria caminhos bloqueados, quebrava feitiços malignos e removia o mau-olhado. Dona Carlota já se mostrava mais contente querendo saber mais detalhes.
— E por que, que danado, a senhora agora resolveu ir numa macumbeira? A senhora não era tão cristã?
Dona Carlota, surpresa com o questionamento, explicou-lhe que desconfiava de um caso extraconjugal do marido, que agora a tratava ainda pior do que o normal.
— E também estão me cobrando uma caristia no dízimo, minha filha. Essas igrejas de hoje são quase um negócio. Eu devia é abrir uma!
Rizelde não a questionou mais sobre o assunto e lhe deu prontamente o contato de Rosa. Num cartão branco encardido, lia-se o número de telefone e os seguintes dizeres:
ROSA DA FORTUNA
DESFAÇO QUALQUER LAÇO OU AMARRAÇÃO
QUEBRO TODO E QUALQUER ENCANTO – TRAGO O SEU AMOR DE VOLTA EM 7 DIAS
Dona Carlota fitou o papelote por alguns segundos enquanto o lia e, logo depois, levantou os olhos verdes, desconfiados, que encontraram os de Ridelze aflitos.
— Pois bem, cuide no almoço que vou ao encontro desta mulher agora mesmo!
Uma paz inesperada e casual tomou conta do apartamento assim que Dona Carlota saiu pela porta da sala. O teto que antes parecia pressionar as cabeças de Rizelde e da Ruiva agora parecia mais espaçoso. As paredes que, costumeiramente, as encurralavam agora também lhes permitiam transitar pelo espaço sem a asfixia de um acocho. Então, continuaram seus afazeres domésticos de forma mais descontraída, estimaram a que horas Dona Carlota voltaria e colocaram um alarme no celular; assim, poderiam ouvir um pouco de música enquanto trabalhavam.
Do aparelho de som, uma melodia fastidiosa se arrastava pelos alto-falantes. O dedilhado melancólico de um violão soava, dando voltas pelos mesmos arpejos da harmonia cíclica, enquanto um baixo grave marcava cada compasso de um brega romântico desses que só dá para dançar a dois. A bateria pulsando ao fundo, numa frequência baixinha, como um coração desamparado, pertinho do fim.
“Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração.”
O ritmo embalava a faxina e o preparo do almoço. Nesse breve instante de paz, conversaram alegremente sobre toda sorte de coisas. A vida na comunidade, a saúde da mãe de Rizelde, que já não andava muito bem, as fofocas de traição no bairro, o porteiro novo, bigodudo e forte, com aquele volume enorme na calça. Enfim, chegaram ao assunto inevitável e controverso: Dona Carlota deveria estar muito desesperada para querer ir a uma macumbeira. Rizelde então indagou se a Ruiva sabia de alguma coisa ou tinha ouvido algum fuxico nas escadas do prédio, onde fumavam um cigarrinho no fim da tarde para aliviar o maltrato do dia.
— Parece que Dr. Jorge tá comendo a vizinha de cima — deixou escapar Ruiva, tentando segurar uma gargalhada.
— Misericórdia…
Continuaram assim confabulando e imaginando como seria o encontro com Rosa. Será que haveria estranhamento por parte de Dona Carlota? Como se comportaria em um ambiente tão diferente do seu? Mal podiam esperar que voltasse para casa, assim podiam pescar nas entrelinhas das conversas entre ela e Dr. Jorge alguma coisa do que ocorrera. Jamais imaginariam os eventos que viriam a seguir.
Rosa estava sentada, vestida toda de branco, com o pescoço adornado com colares de miçangas e búzios delicados. A cabeça raspada, lisa e oleosa, embebida de óleo de semente de girassol, refletia a luz fraca que ondulava dentro de sua tenda. A lona vermelha, refletida no dourado dos penduricalhos e no prateado da bandeja, criava matizes rosados aconchegantes. As unhas enormes, longas e pontiagudas eram quase como garras — poderiam facilmente arrancar o olho de qualquer desavisado que a ameaçasse.
— Já estava à sua espera, minha filha.
— Perdão? Você deve ser a Rosa? — respondeu Dona Carlota — com a voz meio titubeante e insegura naquele ambiente desconhecido.
— A própria! Pois diga-me, que mal te aflige, minha filha?
Dona Carlota desatou a falar dos seus lamúrios, uma coleção de tragédias e infelicidades. Muitas vezes, tropeçou nas palavras e perdeu completamente o rumo da prosa. Anos de uso de ansiolíticos não contribuíram em nada para a coerência do seu discurso. Nunca fora lá muito inteligente ou articulada, mas estava claramente muito pior. Uma espécie de demência, involuntária e precoce, agora degenerava o restante de seu miolo. Não falava nada com nada: era um grande lé com cré.
Nem percebeu que Rosa já revirava os olhos, impaciente. Olhou discretamente para o relógio de pulso sob a longa manga branca de sua chemise bordada.
— Pois então, minha filha… Vamos direto ao assunto. Não é exatamente por nenhum desses motivos que você veio até mim. Estou correta?
Dona Carlota fez um gesto de assentimento e, enfim, desembuchou sobre o caso extraconjugal do marido. Havia recebido imagens horrorosas pelo celular. Um vídeo pornográfico, completamente imoral, do marido com outra mulher. Estava horrorizada e não sabia como proceder. Tudo o que mais desejava era simplesmente afastar aquela pecadora da vida do seu marido, para que pudesse continuar a viver a mentira de um casamento feliz. Não se importava muito se não tinham relações sexuais com frequência elevada ou se o sexo era tão tedioso como sempre. O receio era das coisas horríveis que poderiam ser ditas na igreja ou no clube, e, se esse caso continuasse, com certeza, um divórcio acabaria sendo inevitável. A pobreza lhe batia à porta.
— Não se preocupe, minha filha. Vou desfazer o feitiço desta adúltera que hipnotiza o teu marido com os encantos da carne. Rosa da Fortuna nunca decepciona os seus clientes! Deves acender uma vela branca e ler estas palavras que te entrego nas mãos. O resto é comigo.
— Muito obrigado, Rosa! Não tenho como te agradecer e …
— Ah, tem sim! Isso vai te custar uma certa bufunfa, minha flor. Com certeza a senhora sabe que os trabalhos espirituais também nos custam um certo desprendimento de energia? Não é?
— Quanto? Eu posso pagar…
— Dez mil reais em espécie! — Rosa a interrompeu abruptamente.
Dona Carlota não conseguiu disfarçar a expressão de escárnio e incredulidade diante do valor solicitado; todavia, não tinha outra saída. Rosa também lhe garantiu que faria um trabalho para abrir todos os caminhos bloqueados em sua vida. Era o raiar de um novo dia; ela finalmente seria feliz. Contrato firmado, dirigiu-se ao banco e sacou, na boca do caixa, os dez mil reais que meteu em uma pequena bolsa de academia à paisana que comprou na lojinha de esquina próxima à tenda de Rosa. Entregou-lhe o valor em mãos, agradeceu imensamente e partiu para casa com um sorriso inocente. Sua vida estava prestes a se transformar; mal podia esperar por um instante de alegria. Assim que Dona Carlota saiu da tenda, Rosa levantou-se da mesa, checou as redes sociais no telefone celular e pensou em voz alta:
— Esse povo rico acredita em cada besteira…
O sol já se despedia daquela quarta-feira comum com seus últimos raios. Assim que ela chegou em casa, Rizelde e a Ruiva a cumprimentaram cordialmente como de praxe. Mas se espantaram com o bom humor da patroa; ela parecia profundamente alterada. Parece que o plano tinha dado certo. Rizelde nunca imaginaria que, anos depois, quando ela já não trabalhasse mais naquele apartamento, o lendário trabalho de Rosa viria a se concretizar no final trágico de Dona Carlota: o marido teve um infarto, a furona saltou pela janela do vigésimo andar e se esborrachou no asfalto quente da rua, e ela veio à total falência, tendo que morar de favor com uma tia distante naquilo que ela viria finalmente a chamar de comunidade.
Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada com o aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.

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