Farol Literário

Reflexões sobre as interfaces da Arte, da Filosofia e da Literatura.

O dia após

Escrevo do passado, pois quando essa crônica for publicada e você a estiver lendo, já será amanhã. Dizem que o amanhã será outro dia. Mas se este dia será melhor ou pior, é por conta da decisão que tomamos hoje: o que fazemos no presente ecoa pela eternidade.

Hoje, 25 de outubro de 2026, é o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. E você, caro leitor, que lê este texto da perspectiva do futuro em relação a mim, que ainda escrevo do passado, já deve sentir grande alívio ou total desassossego. O que estava em jogo, afinal, não era a decisão entre dois candidatos nem entre duas propostas de governo distintas. O pleito foi quase como um plebiscito, e as opções eram: continuar com uma democracia ou com um regime autoritário, um simulacro de dinastia.

Destrincho os termos para você compreender o que digo. Plebiscito é um tipo de votação popular em que a sociedade é convidada a votar diretamente para decidir sobre a criação de uma lei, norma ou ato administrativo. Simulacro é uma imitação, cópia ou réplica de algo, seja concreto ou abstrato. E dinastia é a sucessão de membros da mesma família que se sucedem no poder ao longo de muitas gerações, ocupando diferentes cargos de liderança, como governantes, reis, imperadores e chefes de Estado.

Então, voltemos ao que tinha afirmado antes, agora em linguagem mais simples: a escolha era entre um governo democrático, representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o início da dinastia Bolsonaro. Uma vez que a decisão já foi tomada, agora temos que arcar com as consequências da nossa escolha como nação.

Eu espero que você que esteja lendo esse texto no futuro esteja comemorando a vitória da democracia. A história da nossa terra e da nossa gente sempre foi de luta e resistência. Desde que os colonizadores chegaram aqui, já trouxeram a santíssima trindade do caos: a depredação da natureza, o discurso intolerante da catequese que extermina o culto ao diferente e a soberba de que tudo o que vem de fora é mais civilizado do que a própria civilização que aqui já existia. Sim, o Brasil não foi descoberto. Ele foi invadido e, com essa invasão, ocorreram genocídios contra os povos indígenas, além da escravidão instaurada, com todo o povo sequestrado do continente africano. Tivemos luta, dor, sangue e violência.

Talvez seja por isso que hoje, aqui do passado, eu acordei com um nó na garganta e as emoções à flor da pele. Tomei meu café pretinho de sempre e escutei os clássicos da nossa MPB para me animar. Me organizei para cumprir o meu compromisso com a nossa jovem democracia. Apesar do delicado momento, há uma beleza em perceber-se como sujeito histórico, vivendo o presente exatamente no momento em que ele é escrito. Fui votar com a minha mãe. Primeiro, fomos à seção eleitoral dela e, depois, à minha. Não pude deixar de notar a ironia de que a minha seção eleitoral é uma escola americana.

Os Estados Unidos se metem aqui desde os tempos da ditadura militar. E agora, mais do que nunca, sob a influência da big tech e sob o controle absoluto das redes sociais. Os algoritmos, esses sistemas invisíveis de gestão da informação que nos é oferecida, assustariam até os mais distópicos dos autores, como George Orwell e Aldous Huxley.

(Moças do interior, Di Cavalcanti. 1922 — Óleo sobre tela)

Enquanto aguardava na fila para exercer meu direito de cidadão, um turbilhão de afetos percorria meu corpo. Um misto de felicidade e agonia. É bonito estar ali, participando do rito da democracia, enquanto se observa outros cidadãos sinalizando, por meio de códigos e cores, que também desejam continuar votando na próxima eleição. Ao mesmo tempo, me aterroriza ver alguns outros, não tantos, porque aqui no Nordeste são minoria, que sinalizam o desejo de eleger um candidato autoritário que representa um projeto de decadência para o nosso futuro.

O arremate final da cena foi quando eu caminhava para casa com a minha mãe. Íamos atrás de duas mulheres de meia-idade, ambas negras, o que conferia ao episódio uma relevância ainda maior. Não pude evitar estar ali como ouvinte daquele diálogo, até tentei caminhar mais devagarinho do que o normal. Percebi que eram comadres, parceiras, amigas, companheiras. Embora houvesse dois lados, cada uma apresentava seus argumentos para justificar por que um candidato ou outro não poderia ser confiável. Observei a paciência com que a amiga mais esclarecida tentava explicar como a mídia, seja a de massa ou as redes sociais, consegue manipular a cabeça das pessoas. Sendo didática como professora e habilidosa como jogadora de futebol, ela ia driblando discursos falaciosos e marcando escanteios para criar oportunidades de gol. Não pode ser fácil ser uma mulher negra num país misógino e racista como o Brasil. Mas tive o privilégio de ver aquela cena em que uma sábia heroína explicava com tanta paciência e desmentia os absurdos de um discurso que faz com que grande parte da população brasileira queira votar contra os próprios interesses.

Me emocionei. Um fio de esperança brotou em meu coração. Se o Brasil pudesse ter uma imagem antropomorfizada, seria a de uma mulher preta. Como aquela Nossa Senhora Aparecida que os pescadores encontraram em duas partes e que não à toa se tornou a padroeira do nosso país. Sim, sempre uma mulher negra como símbolo da resistência e da esperança. Para honrar a ancestralidade de todos os escravizados que chegaram ao Brasil após um sequestro brutal. Entre Dandaras, Marielles, Erikas e Anas, que possamos ter a força dessas mulheres como exemplo, qualquer que seja o resultado da eleição de hoje, pois sabemos que, mesmo com a vitória da democracia, teremos que continuar lutando pelos direitos da maioria. Caso o trágico tenha ocorrido, peço que não se desespere. Lembre-se dessas mulheres que mencionei e de tantas outras, e levante a cabeça para a luta. Não travaremos uma guerra contra eles, pois não somos belicosos. Mas faremos uma antítese! Oposição de ideias: nossas armas são o saber. Contudo, o que eu realmente desejo para o amanhã, o dia após o histórico de hoje, é que você esteja sorrindo e comemorando a possibilidade de um projeto de futuro. Em qualquer dos casos, o amanhã sempre chegará.

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