Só os loucos sabem

Acabei de ler “Veronika decide morrer”, do escritor Paulo Coelho, também autor de “O Alquimista” e “O Diário de um Mago”. Embora seja alguém que alcançou um sucesso comercial avassalador, ele divide a crítica literária: amado por uns e odiado por outros. Intensificando ainda mais a polarização entre fãs e críticos, ele ocupa a cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras, o que é bastante polêmico, visto que, tradicionalmente, outros autores populares de gerações anteriores, como Drummond, Quintana e Vinicius, ficaram de fora da instituição.

Coelho é o autor de língua portuguesa, incluindo autores de Portugal, mais vendido no mundo até hoje. A negação de seu sucesso como escritor talvez se baseie no mito de que para ser intelectual e produzir literatura ou arte de qualidade, a linguagem deve ser rebuscada e inacessível. Acredito que esse tipo de pensamento elitista é um projeto perverso de negar às massas o acesso à literatura e o desenvolvimento de um pensamento crítico. Vejamos no exemplo da musicologia: ninguém começa lendo ou tocando Chopin e Beethoven; não que esses exemplos sejam únicos em termos de qualidade e prestígio, mas os menciono por sua complexidade musical.

A arte, e principalmente a literatura, pode e deve ser acessível a todos, como vai afirmar o crítico literário Antonio Candido no ensaio ‘O direito à literatura’ (1988):

“Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável.” (CANDIDO, 1995)

Neste ensaio, no qual citei o trecho acima, o autor explica que a literatura deve ser entendida como um direito universal, pois a espécie humana é intrinsecamente fabuladora. Isto quer dizer que nossos ancestrais e todos aqueles que vieram antes de nós já usavam a fabulação — quero dizer, a narração —, a capacidade de contar histórias nos acompanha desde que o mundo é mundo. Pausa. Adoro essa frase: “desde que o mundo é mundo”; sempre a achei engraçada. Voltemos…

O mais cruel, no caso da nossa sociedade contemporânea, é que não se reconhece que esse direito vital de se deleitar com as narrativas é tão valioso quanto o acesso à água, à comida, à moradia, à educação, à saúde, etc. Candido vai além, fortalecendo o que mencionei anteriormente:

“A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura.”

Em suma, não podemos dizer que temos uma civilização, muito menos um projeto de futuro para a humanidade se não tivermos consciência desse direito à fabulação. É dessa ausência da palavra, do texto, de linguagens, no plural, que se fortalece essa lavagem cerebral, similar a uma lobotomia coletiva, em tantos indivíduos que perdem completamente suas subjetividades e se tornam zumbis do crescente projeto fascista neoliberal que assola o mundo.

O que precisamos, portanto, é espalhar a palavra por aí. Quando digo a palavra, falo do texto, da linguagem, do recado. Manter o diálogo aberto e a comunicação entre nós. Acho que por isso tenho estado tão apaixonado pelas palavras, pelos livros e pela literatura. Confesso que tinha me afastado dela por um tempo. A vida acontece: é trabalho, curso, cansaço, stress, falta de tempo ou de prioridade. É totalmente compreensível que tantas pessoas se sintam desmotivadas para ler. Sei que não é uma atividade fácil nem necessariamente prazerosa no início. É preciso ganhar um certo condicionamento para a leitura, quase como ir à academia: no início, você sofre bastante até se adaptar, mas depois colhe os benefícios para a saúde física e mental.

Como estava dizendo, houve, sim, alguns anos da minha vida em que estive distante das leituras. Entre decepções amorosas, acertos e erros de uma juventude em curso, acabei dando um tempo. Mas esse caso de amor com ela é antigo na minha vida. Sempre gostei de ler. E de escrever também. Estava correndo hoje pela Avenida Boa Viagem, à beira do mar, quando me lembrei de que sempre fui escritor. Meus primeiros textos e leitores? Cartas de amor. Sim, não me julgue, caro leitor; quem nunca escreveu uma carta de amor não passou por essa vida.

Aos 12, eu já escrevia para minhas primas distantes que moravam em Garanhuns, terra do meu pai, e também para outra figura importante do nosso país que nasceu em Caetés, na época, um distrito pertencente à municipalidade de Garanhuns. Aos 15 ou 16 anos, escrevia cartas de amor melosas e sem sentido algum para garotas que jamais consegui convencer a ter algo mais duradouro do que apenas algumas ficadas. Sendo bem honesto, ao ler esses meus primeiros textos hoje em dia, quase vomito com a quantidade exagerada de clichês, chavões e frases prontas. Mas, fazendo uma leitura crítica e reflexiva, é totalmente compreensível o subtexto da mente de um adolescente daquela idade, visto que ainda não teve os sonhos triturados por um moinho, como diria Cartola em sua canção. Talvez esses textos primitivos tenham algo de que os de hoje carecem bastante: inocência.

Fato é que ler e escrever são atos de viver, expressões da potência da vida por meio da linguagem. Essa crônica, por exemplo, começou a ser escrita na minha cabeça, quando eu ainda corria, admirando o brilho do sol, saudando meus poros, profundamente atravessados por mais vida. Até falei para meu psicanalista (um abraço, Dário!) que escrever é analisar o que vemos na página. Quando colocamos o texto no papel, na tela, seja qual for a mídia em que despejamos as palavras, podemos ver nossos pensamentos de fora. Assim, torna-se possível brincar com as ideias, associar livremente conceitos e palavras, como na psicanálise, e elaborar tudo aquilo que, se não fosse dito, talvez virasse amargura.

E a amargura, ou Vitríolo, como tão bem descreveu Paulo Coelho em ‘Veronika Decide Morrer’, é o que nos mata aos poucos, sem o escândalo de um suicídio: seguimos indo ao trabalho, vendo televisão e reclamando do trânsito, mas já sem desejo de nada. Então, para combater a amargura, sejamos loucos, loucos pela vida! Porque, como escreveu Chorão, “só os loucos sabem!”

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