
(Isle of the Dead, Arnold Böcklin. 1883 – Oil on wood panel)
De certo soará caricato desenvolver um ensaio filosófico que ambiciona relacionar tópicos aparentemente tão desconexos. Como relacionar o pensamento de uma filosofia, até hoje incompreendida por muitos, tão desconstrutora dos conceitos, com um produto mercadológico da indústria cultural contemporânea? Ora, se há algo que possa reverberar em meu entendimento acerca do pensamento de Nietzsche, é justamente que é necessário fazer um salto sobre aquilo que seria considerável, provável, previsível; é preciso construir um pensamento próprio, um pensamento daquilo que é improvável.
Talvez o melhor caminho, então, para não cair na caricatura, seja simplesmente omitir a fonte exata do enredo que analiso neste ensaio. Contento-me em dizer que as personagens que irei analisar representam polos opostos: uma é vista como o bem e a outra como o mal. Conceito facilmente explicitado pela ideia taoísta de yin e yang, duas forças diametralmente opostas que se contrabalançam e se transformam mutuamente de forma contínua; perpetuam a ideia heraclitiana do devir; a eterna transformação através do encontro e do desencontro. No corpo humano, nosso microcosmo, há uma série de reações e processos químicos, físicos e neurobiológicos que visam à homeostase, ao equilíbrio e à harmonia. No macrocosmo, ou aquilo além de nós, parece que temos essa tendência psíquica de querer, justamente, reduzir as coisas às palavras, como diz Foucault, querer sempre categorizar os conceitos em signos, amarrar significantes aos significados; eliminar a ambiguidade e tudo aquilo que não é binário. “Ou é, ou não é”, diz Parmênides. “Ser ou não ser? — Eis a questão! — ecoa Shakespeare. Mas, de outra perspectiva, e se for possível ser e não ser ao mesmo tempo? Nietzsche, finalmente, põe em questão.
Pois bem, na narrativa da espécie humana, acreditou-se necessário definir como ‘o mal’ tudo aquilo que não é ‘o bem’. Dito de outro modo, é por meio desse jogo de signos de que as palavras são feitas que se constitui o sistema metafísico que é a linguagem. Como diz Viviane Mosé, “os conceitos, assim como as palavras, são resíduos de metáforas, são metáforas mortas, fixadas pela necessidade de identidade” (MOSÉ, 2018, p. 51). Sendo assim, a ideia do que é o outro se apresenta na forma de negação do que não sou. Essa ideia de alteridade é que alimenta toda sorte de pensamento dicotómico e polarizante que vemos hoje na cultura contemporânea. E, visto que o outro lado está sempre “errado” — uma vez que o meu seria o certo —, ele precisa ser eliminado, exterminado; precisa ser apresentado como ‘o mal’. Essa lógica metafísica civilizatória da linguagem alimentou todo tipo de guerra desde os tempos antigos, atingindo seu ápice nos horrores da Segunda Guerra Mundial. O antissemitismo, uma forma de negação e exclusão do outro, foi o mecanismo e a desculpa vazia em que o regime nazista se embasou para criar um alvo. Alvos que, na lógica explicitada anteriormente, sempre precisam ser criados para que a narrativa seja justificada.
Voltemos às personagens que busco analisar. Acerca da obra sobre a qual discorro, o público contemporâneo é convidado a rever suas concepções sobre o que significam os conceitos de bem e de mal. Por mais que eu já tenha lido, assistido e ouvido a obra uma série de vezes, sempre encontro novos pontos de luz e de sombra que mostram nuances de uma escala de cinzas que, a olho nu, passariam despercebidas. À primeira vista, a história que menciono é tão cheia de detalhes e reviravoltas que seria quase inconcebível captar todas as suas sutilezas, e talvez isso seja mérito de todas as histórias dignas de nossa atenção, visto que, se o conto é simplista demais, cai na objetividade insossa de categorização da realidade, que, como sabemos, é complexa demais para ser reduzida a esse binarismo inocente. Desse segundo tipo de narrativas inúteis estamos fartos, pois, como acusam Adorno e Horkheimer em seu “A dialética do esclarecimento” (1944), a mercantilização da arte e da cultura para as massas resulta na criação dessa indústria que pasteuriza a experiência estética, artística, encaixotando-a e embalando-a em plástico. Tome-se, como exemplo, não por acaso, a recente adaptação cinematográfica de Christopher Nolan de “A Odisseia”. Não há nada de novo na maneira como o cinema hollywoodiano continua a perpetuar o estereótipo burguês e a pasteurizar até mesmo clássicos da tradição literária ocidental, transformando-os em um produto consumível. Adorno e Horkheimer já interpretavam, em sua obra, Odisseu como o protótipo do homem burguês, a conhecida jornada do herói na qual toda tradição ocidental se baseia.
É justamente por negar esse enredo simplista que acredito que a obra que analiso tem tido tanta força nos últimos vinte anos. Enredos que não têm um protagonista e um antagonista claros, definidos logo no começo, e que convidam o público a fazer sua interpretação a partir de suas próprias vivências e entendimentos, muitas vezes até mudando de concepção ao longo do percurso, são mais desafiadores para as massas em geral. Mas é justamente neste ponto que reside o potencial afirmativo desse conto. O convite feito ao público é olhar para além das aparências e, como diz Nietzsche, para “além do bem e do mal”. Compreendendo, então, que bem e mal são faces de uma mesma moeda e que é impossível que um exista sem o outro. Somos convidados a repensar e, possivelmente, a abraçar e acolher o mal que existe em nós, que teimamos em nos achar tão bons o tempo todo. E também reconhecer a nossa genuína bondade diante das situações em que nos é exigido sermos bons. Enfim, deixo a questão: será que o mal precisa sempre ser desprezado? E será que só aos bons é reservado um lugar melhor? O mal, enfim, talvez possa ser tão bom.

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