Alumni

Hoje, dia 15 de outubro, data em que se celebra o Dia dos Professores, cheguei à trágica conclusão de que não se pode ensinar absolutamente nada a ninguém. Calma, caro leitor, discorro sobre a controversa afirmação a seguir.

Após 16 anos ensinando, é inevitável refletir sobre o próprio ato de lecionar. Nesta profissão tão mal reconhecida em nosso país (e olhe que estou falando de um lugar de extremo privilégio, porque ensino em escola particular, em um nicho muito afortunado que é o inglês), creio que todo profissional da educação já se questionou por que exercer tal função.

Acredito que não se escolhe ser professor, mas se torna professor; parafraseando livremente aqui a Simone de Beauvoir em sua assertiva sobre o que é ser mulher. Ensinar é ter a oportunidade de ser um eterno aprendiz, aquele que, consciente de sua profunda ignorância, decide ser um aluno perpétuo. Talvez por isso, os educadores mais fervorosos se choquem tanto com alunos desleixados. Além de não terem brilho, como o antigo mito etimológico da palavra nos explicava (a — prefixo de negação / lummni — luz), muitos carecem da vontade de serem iluminados.

Hoje, essa falsa afirmação etimológica já foi refutada e considerada datada e antipedagógica. O dicionário Houaiss diz que “aluno” na verdade vem do latim Alumnus, que significa “criança de peito, lactente, menino, aluno, discípulo”, derivado do verbo alere, que significa “fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer”, etc. Voltando à minha livre reflexão e sem adentrar nos pormenores da ética pedagógica, o fato é que me parecem existir dois tipos de alunos: os realmente sem luz e os brilhantes.

Faz-se necessário explicitar que aqui não estou fazendo juízo de valor nem implicando que alguns sujeitos com níveis diferentes de oportunidade sejam melhores ou mais capazes do que outros. Ora, sabemos bem das horrendas condições da educação no Brasil e das injustiças da desigualdade social. A precarização e a falta de acesso a recursos educacionais são problemas sérios nesta nação, e, obviamente, não estou a validar esse discurso falso, hipócrita e neoliberal de que existiria uma meritocracia e todo aquele blá-blá-blá. Jamais, caro leitor! Jamais podemos comparar indivíduos com diferentes condições histórico-socio-materiais e colocá-los na mesma balança, propagando essa ilusão de meritocracia. Que fique muito claro que não se trata disso a minha divagação.

O meu devaneio de professor é mais um exercício filosófico-imaginativo livre. Para estarmos na mesma página, imagine o seguinte: um grupo de adolescentes de classe média alta, extremamente privilegiados, que tem absolutamente todas as condições materiais para aprender. Imaginou? Pronto, é deste grupo que estou falando nessa crônica.

Pois bem, como dizia, a afirmação de que não se pode ensinar nada a ninguém baseia-se na reflexão sobre a minha experiência enquanto aluno e professor. Todo docente já se frustrou com alunos que não seguem o caminho que mostramos ou, pior, fazem exatamente o contrário do que dizemos. São esses casos a que me refiro. Veja que é importante enxergar o professor não como essa criatura mítica que detém todo o conhecimento de uma determinada área, mas sim como alguém um pouco mais esclarecido, talvez menos ignorante, que está a guiar um caminho, uma trilha do aprendizado. Por ter percorrido esse caminho, o educador saberia qual estrada seguir e, então, essa seria a direção que desejaria facilitar aos seus alunos.

É nesse contexto que cheguei à conclusão de que não se pode ensinar nada, mas apenas mostrar o caminho e sugestionar a melhor maneira de percorrê-lo. Assim, pode-se entender que não há ensino no sentido mais estrito do termo, mas apenas aprendizado. Seria mais claro dizer “instrução” em vez de “ensino”, porque dar instruções aos alunos é tudo o que podemos fazer enquanto educadores, mas sempre caberá ao aluno executar essas instruções da maneira que bem entender. E, como mencionei anteriormente, muitas vezes eles tendem a fazer exatamente o oposto ou a não seguir nenhuma instrução. É também papel do educador provocá-los, no sentido de trazer à tona questões e reflexões, de modo a gerar incômodo. É desse desconforto que pode nascer um entendimento, um momento de eureka, uma sensação de que as peças se encaixaram.

Já os alunos brilhantes têm o seu próprio brilho, como a etimologia da palavra agora não mente. A sua própria luz  os guia, junto com as instruções do professor, na trilha do aprendizado. Penso que são justamente estes que trazem um prazer imenso aos professores que se maravilham com a sede de aprendizado e com a fluidez com que aprendem. Há talvez uma espécie de espelhamento também. O educador se vê no aluno brilhante, e vice-versa. Há um pacto poético de deslumbramento sobre o quão mágico é aprender algo novo. Lançar luz sobre um percurso sombrio, desbravar os terrenos do que ainda não se sabe, mas que se anseia tanto por saber. É nesse sentido que acredito que não se pode ensinar nada a ninguém, mas com boas instruções e um pouco de iluminação, pode-se aprender eternamente.

Disclaimer: todos os textos são 100% de minha autoria (até porque IA não escreve assim, rs). Apenas a narração em áudio foi gerada com o aplicativo ElevenLabs para acompanhar a leitura de quem deseja ouvir.

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